Acabo de conversar com um dos mais experientes repórteres políticos de Brasília. Sua visão – de dentro do jornalismo brasiliense – ajuda a trazer mais dados para essa história do suposto dossiê contra Fernando Henrique Cardoso.
Ninguém duvida que o governo tem suas bruxarias, diz ele. É evidente que estava se armando para a eventualidade de uma CPI. Seria irracional que não estivesse.
Só que as 13 folhas obtidas pela Veja, e reproduzidas pela Folha, não têm nada a ver com a história. Há inúmeras indicações de que o suposto dossiê pode ter sido produzido por membros do governo anterior, diz ele. A primeira, é que os papéis não machucam ninguém. Apresentam apenas banalidades sobre os gastos de FHC. Depois – continua ele – porque, pela descrição da “Folha”, percebe-se que foram extraídos de três bases de dados diferentes, com três letras diferentes de computadores, com diferentes tratamentos a dona Ruth.
Esses papéis não foram produzidos na Casa Civil, garante ele. No máximo pode haver alguma coisa da base de dados que foi juntada às treze folhas. A Casa Civil pode ter seu levantamento, mas não é esse.
Já havia suspeitas de que o material reproduzido pela “Folha” na quinta tivesse sido fornecido pela Veja. Primeiro, pelo fato de nenhuma das duas empresas darem a menor dica sobre a proveniência dos dados. Em qualquer jornalismo que se preze, não se entregam as fontes mas se dão dicas sobre a origem da informação, como forma de situar o leitor. Ou do Congresso, ou de fontes do Palácio, ou de fontes do antigo governo, qualquer coisa que permita ao leitor saber o que estão lhe servindo.
As duas publicações nada falam sobre isso. Mas a confirmação veio na última edição de Veja.
Dilma Rousseff negociou terça e quarta pessoalmente com Roberto Civita a publicação do desmentido oficial da Casa Civil, diz ele. O acordo foi fechado na quarta. A confirmação veio na última edição da revista, no espaço aberto à Ministra. A redação da Veja se sentiu acuada. O suposto dossiê foi entregue à Folha na quinta – típica reação dos porões, diz ele.
E porque porões? Aí entra a questão da bruxaria, imagem que ele vai buscar em matéria de Elio Gaspari na Veja, em 1985, quando Brasília amanheceu coalhada de cartazes indicando que o Partido Comunista apoiava Tancredo.
Todo mundo sabia disso, não era novidade. A novidade era saber quem colocou os cartazes. Enquanto a imprensa saía atrás da repercussão dos cartazes, Gaspari saía atrás da identidade dos responsáveis – que haviam sido presos. Descobriu-se que eram pessoas do Centro de Informações do Exército, pretendendo açular a linha dura.
A lógica é a mesma do suposto dossiê, diz ele, e não se trata de tapioca. Todo mundo sabe que o governo está se armando. Mas o dossiê foi gerado fora do governo para criar um fato político – não com a linha dura do Exército, obviamente, mas com os falcões do Congresso.
Tem uma matéria Veja acontecendo neste momento, diz ele. Não é só calvinista, falso moralismo, não é só estupidez que está exposta. Tem bruxaria também e que está se desdobrando agora. O pessoal antigo de FHC voltou a operar.
A grande pauta do momento é saber quem confeccionou o suposto dossiê.
Mas isto é pauta para mim e meus colegas de Brasília, diz ele, antes de nos despedirmos para o almoço.
PS - Obviamente o que o repórter expõe é uma hipótese de investigação, uma suspeita, uma pauta que está sendo perseguida.
Por Jose Augusto Zague
Nassif,
separei um trecho de uma reportagem da Folha de São Paulo do dia 12/02 ( caderno 1- brasil, pagina A5) que corrobora com o que vc apurou com seu amigo jornalista e mostra que não houve corrida para analisar os dados sobre cartões e contas tipo B apenas no governo federal e tambem entre os tucanos, :
Acordo com o governo faz ex-presidente atuar para restringir investigações da CPI
SILVIO NAVARRO
Folha de S. Paulo
12/2/2008
Classificado pela cúpula tucana como "precipitado", o acordo do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) com o governo na eventual CPI dos Cartões Corporativos mobilizou ontem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e auxiliares numa varredura de dados,(...) À tarde, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), reuniu-se com o secretário de Organização do partido, Eduardo Jorge, ex-secretário-geral da Presidência na gestão FHC. Jorge ficou encarregado de coletar dados sobre o período e checar que tipo de documentação estaria arquivada, assim como o acesso a ela.
Ficou claro que os tucanos tambem possuem uma base de dados sobre o período e o fato desse relatório de 13 páginas obtido por Veja jamais ter sido divulgado na integra - apenas fragmentos - faz
pensar que esses dados que estão circulando, podem ter vindo de quem realmente tinha interesse em divulga-los.