08/07/08 09:44
O lobista de Dantas
Na longa noite de São Bartolomeu, tudo foi permitido à direção da revista Veja. Poucas vezes se assistiu na imprensa brasileira a tal festival de violência gratuita, de deslumbramento, de demonstração de força, de ataques generalizados contra a honra de terceiros, atropelando normas básicas de jornalismo como novos ricos do poder.
Assemelhavam-se a um bando de alucinados armados, atirando contra qualquer vulto que se mexesse à sua frente.
Muitos episódios ficarão na lembranças dos leitores. Não apenas as capas - de uma agressividade incompatível com uma grande publicação -, mas as matérias estranhas de assassinatos de reputação em disputas comerciais, a manipulação da lista dos livros mais vendidos para beneficiar um diretor da revista.

Dentre todos os assomos de anti-jornalismo, quando todos os detalhes forem conhecidos, a herança que terá desdobramentos , será os motivos que levaram a direção da revista a permitir que o colunista Diogo Mainardi praticasse o mais escancarado lobby empresarial que a grande imprensa brasileira tida por séria já produziu. E em defesa do mais polêmico empresário brasileiro, Daniel Dantas, preso pela Polícia Federal sob a acusação de formação de quadrilha.
O episódio é relevante para se aprofundar sobre o papel da mídia nesse jogo, dos jornalistas que, sob a batuta de Dantas, manipularam informações com o claro intuito de influenciar o Judiciário.
É o caso de Diogo Mainardi.
Desde a morte de Paulo Francis se apresentaram vários candidatos à sua sucessão. No Estadão, Daniel Piza; na Folha (depois no Estadão) e no sistema Globo, Arnaldo Jabor, que acabou levando o cetro por seu conhecimento, talento e histrionismo. E uma malandragem tipicamente franciana.
Mainardi foi a aposta de Veja, forçada em quem não dominava princípios básicos de política, economia, de história e tinha evidente dificuldade em diversificar temas para suprir uma coluna apenas semanal.
Copiava Jabor. Mas sem sua cultura e talento, a diferenciação se dava na grosseria e na certeza de contar com as costas largas da Abril - garantindo advogados e pagamento das condenações pecuniárias.
Rompidos os limites jornalísticos, o que se seguiu foi mera conseqüência.
As ligações com Daniel Dantas surgiram a partir de 2005. Dois episódios em particular expuseram a revista de maneira imprudente.
O primeiro foi na confusão em que a revista se meteu no episódio das contas de autoridades no exterior (O dossiê falso). Como se recorda, o material foi fornecido por Dantas; o editor incumbido de ir atrás apurou que era falso. Para salvar a cara de Dantas, o diretor da revista Eurípedes Alcântara incumbiu Mainardi de conseguir uma “entrevista” com o banqueiro, que serviria como contrapeso à revelação sobre a falsificação (O dossiê falso).
Mainardi trouxe um relatório claramente preparado pelos próprios advogados de Dantas, com as perguntas e respostas prontas. O amadorismo editorial da revista não a levou sequer a adaptar a entrevista aos padrões da própria revista – consolidados há três décadas, pelo menos.
À esquerda o padrão de edição ping-pong. À direita a "entrevista" feita por Mainardi

O segundo – mais grave – foi nos eventos que cercaram as negociações da Brasil Telecom com a Telemar.
Para se prevenir contra denúncias, que poderiam enfraquecer sua posição negocial, Dantas acionou Mainardi de forma intensa. Criou-se um gancho – o tal relatório que estaria sendo preparado pelo Ministério Público italiano, cujas informações Mainardi vazava seletivamente.
Mainardi passou a mencioná-lo constantemente, com insinuações de que conteriam denúncias contra jornalistas brasileiros que supostamente teriam sido subornados.
Aqui no Blog, desafiei-o a abrir as informações, com base em um princípio elementar: jornalista (ainda que parajornalista) que diz ter uma informação, não a divulga e a utiliza como ameaça é chantagista. O desafio desarmou o blefe. E aí Mainardi se perdeu.
A série "O Caso de Veja" já conseguira chamar a atenção da opinião pública esclarecida, incluindo as redações. Os capítulos acabaram jogando um holofote sobre sua atuação.
Mesmo assim, não parou, provavelmente devido a compromissos que o impediriam de interromper o lobby. As negociações entre Dantas e os controladores da Telemar estavam a pleno vapor. As denúncias vazadas para Mainardi visavam coibir as críticas - através de chantagem explícita -, enrolar a opinião pública de maneira a fortalecer a posição de Dantas. Em plena batalha, não se viu em condições de suspender sua operação.
Com a credibilidade abalada, decidiu publicar uma nova coluna e colocar na Internet o tal relatório, em PDF. Foi sua perdição. Leitores do Blog constataram que, ao contrário do que Mainardi afirmava, o relatório fora escaneado no Brasil, páginas haviam sido suprimidas denotando manipulação.
Nesse ínterim, a revista CartaCapital conseguiu entrevistar Angelo Jannone, ex-chefe da segurança da Telecom Italia no Brasil - e alvo de investigações do Ministério Público italiano. Mainardi julgou que tinha conseguido o seu álibi.
Um roteiro para entender
Antes de avançar no nosso roteiro, vamos entender melhor o papel de cada personagem na novela italiana.
Nos primeiros anos à frente da Telecom Italia, o cappo da Pirelli Tronchetti Provera entrou em guerra comercial pesada contra Daniel Dantas.
Àquela altura, contratada por Dantas a Kroll atuava a todo vapor, grampeando autoridades, jornalistas, alimentando a imprensa cooptada. Para enfrentá-la, foi enviado ao Brasil o ex-carabineiro Angelo Jannone, que acabou sendo peça central na divulgação do chamado “ dossiê Kroll”- que, comprovando grampos em autoridades brasileiras, levou à abertura do inquérito pela PF e pelo MP.
O chefe de Jannone era Giuliano Tavalori - que foi preso por um ano, sob a acusação de comandar o esquema de espionagem da companhia, em um inquérito que apurava escândalos da Parmalat italiana.
Tavalori tinha como assessor Marco Bernardini, personagem menor do jogo, ex-agente do serviço secreto italiano, que deixou a função para trabalhar na Global, agência particular de investigações de Gianpaolo Spinelli, ex-agente da CIA.
Em determinado momento, esse Bernardini procurou a justiça italiana e passou a fornecer espontaneamente um conjunto de informações sobre o Brasil.
Em um inquérito, as informações de uma testemunha são colocadas sem juízo de valor. Mais tarde, caberá às investigações, a ao juiz, decidir se são falsas, verdadeiras ou não comprováveis.
No meio do caminho, surgiu também uma tradutora que passou a distribuir informações para a imprensa brasileira.
Com base nas declarações de Bernardini e da tradutora, montou-se o esquema jornalístico de Dantas na imprensa brasileira – tendo como ponta de lança as colunas de Mainardi.
Tornou-se quase um jogo de tiro ao pato. Bastava Bernardini formular qualquer suspeita, as declarações irem para o inquérito, o inquérito ser vazado para os jornalistas do esquema e estes fuzilarem os recalcitrantes. Qualquer nome que entrasse na história, ainda que mencionado de passagem, era exposto como suspeito por Mainardi, em colunas que, mesmo não fundamentadas, ecoavam em 1,2 milhão de exemplares.
A estratégia de procurar manipular o Judiciário com informações falsas ou dirigidas tornou-se escancarada. Na coluna em que mencionava o relatório, Mainardi informava que o estava encaminhando às autoridades judiciais. A manipulação não se limitava mais a produzir factóides, informações falsas ou verdadeiras que eram aproveitadas por Dantas nos diversos processos que enfrentava. Agora, era a entrega direta da documentação a juízes.
Mainardi se expõe
Voltemos, agora, à entrevista da CartaCapital com Angelo Jannone (clique aqui).
Aparentemente assustado com a revelação da sua jogada com Dantas, Mainardi apelou para o testemunho de Jannone, mencionando a entrevista como comprovação da sua inocência e confirmação das fontes a que tinha acesso. Segundo ele, Jannone seria uma delas. E, aí, escancarou a guarda e permitiu juntar as últimas peças que faltavam para entender sua atuação.
Indagado pela CartaCapital se havia sido procurado por alguém da Veja, Jannone respondeu:
AJ: Uma vez, pelo telefone, me procurou o Mainardi. Creio que quem deu meu número foi um jornalista italiano. O mesmo a afirmar que os documentos do processo em andamento por aqui eram passados a Mainardi pelo próprio Bernardini.
CC: Quando Mainardi telefonou?
AJ: Em 2006. De saída, Mainardi disse saber que sou um bom sujeito, em seguida declarou sua intenção de perseguir a turma do PT por ter certeza de que recebera propinas.
Foram essas as declarações de Jannone.
No dia 8 de abril de 2008, em seu podcast semanal, Mainardi declarou o seguinte:
"Em vez de mentir a meu respeito, declarando que fabriquei o documento, o araponga da Telecom Italia reconheceu sua autenticidade, dando até o nome do indiciado que o teria remetido para mim".
Jannone apenas mencionara que recebeu um telefonema de Mainardi em 2006. Não havia uma palavra sequer sobre o documento publicado por Mainardi.
Mainardi prosseguia:
"Além de me acusar de ter forjado documentos, a ala mais aloprada da imprensa paraestatal me acusou também de inventar fontes jornalísticas na Itália. O entrevistado de Carta Capital desmentiu os aloprados. Numa enfiada só, ele revelou três de minhas fontes: ele mesmo, um jornalista e o indiciado que me teria repassado os documentos oficiais do tribunal italiano".
Jannone simplesmente não se referira a fontes ou documentos. Mainardi se fiava na diferença de cobertura da Veja em relação à CartaCapital para desenvolver uma tese fantasiosa.
"A imprensa paraestatal ficou meio abobalhada com esses dois desmentidos, tanto que engendrou uma trama ainda mais fantasiosa do que a anterior: sim, os documentos que publiquei talvez fossem verdadeiros, mas nesse caso o próprio inquérito italiano estaria contaminado por Daniel Dantas. Além de manipular dossiês, Mainardi manipulava as denúncias. A denúncia era de que o relatório manipulava dados do inquérito da polícia italiana".
A denúncia é que o arquivo de Mainardi mostrava claramente diferenças de numeração, indicando que quem o montou poderia ter misturado peças do inquérito italiano com outras de fora.
O documento tem duas numerações. Uma aparentemente a numeração oficial do inquérito. Outra, uma numeração específica do documento. Por exemplo, foram escondidas as 135 primeiras páginas do inquérito original.
Esse estilo de falsear verdades, inventar declarações, criar acusações falsas para poder rebatê-las permeou toda a atividade do colunista nesses anos todos.
Em seu Blog, Jannone publicou um texto em italiano, com o seguinte conteúdo (traduzido):
"Nesse meio tempo, o "segredo" foi revelado: os documentos publicados por [Janaína] Leite e [Diego] Mainardi saíram de repartições do judiciário brasileiro, aos quais não chegaram por canais oficiais (Procuradoria de Milão), mas oficiosos. Interessante! Ficou completo, desse modo, o serviço prestado aos investigados no inquérito brasileiro (Operação Chacal). Ou seja: textos são introduzidos no processo italiano, as declarações (que se transformam em declarações oficiais) acabam chegando por canais misteriosos àqueles que os fornecem ao Ministério Público brasileiro, e alguns deles, por sua vez, à imprensa. Salva-se a cara, salva-se o processo. Só não se salva a verdade".
A entrevista com Jannone
Não existem mocinhos nessa história, mas vamos à versão de Jannone - que poderá ser conferida nos áudios anexados ao capítulo - que ajuda a colocar algumas peças que faltam nesse quebra-cabeças.
Conta Jannone que, na sua primeira apresentação aos promotores, Bernardini apresentou - sem nada comentar - a reportagem de capa de Veja sobre as tais contas secretas de autoridades brasileiras no exterior (“O Dossiê Falso”). A mesma capa que Eurípedes procurou salvar colocando Mainardi para simular a entrevista com Dantas.
Jannone diz mais: no inquérito italiano, o advogado de Bernardini afirma que na última vez que veio ao Brasil foi para encontrar-se com Marcos Valério - o publicitário que ajudou a financiar o "valerioduto" e que tinha a conta da Telemig Celular, no tempo em que era controlada pelo Opportunity.
Seu depoimento, somado às matérias que têm saído de jornalistas ligados a Dantas, permitem identificar nitidamente a estratégia de Mainardi, com a qual a direção de Veja passou a compactuar, com Eurípedes servindo de avalista junto à Abril – sustentando que as colunas se baseavam em provas concretas.
A entrevista com Jannone foi gravada com sua autorização. Reproduzo trecho a trecho para facilitar a compreensão dos leitores.
Trecho 1 - Jannone diz que o inquérito começou com declarações mentirosas de fontes. No começo não conseguiu entender. Depois, ficou mais claro. No início de sua "colaboração" com a justiça italiana, Bernardini ficou falando do Brasil. Ele não conhece o Brasil, nem tem cabeça refinada para falar o que falou, diz Jannone. A imagem que Bernardini tentava passar era de uma Polícia Federal brasileira corrupta. políticos corruptos, e Jannone responsável pelos subornos. A coisa mais estranha, diz Jannone, é que no primeiro dia de interrogatório dele, entregou aos promotores, sem nada comentar, a famosa reportagem da Veja que falava de contas bancárias do presidente Lula, do chefe da Polícia Federal, Lacerda. Mas de forma estranha, sem comentar, como se outra pessoa tivesse dito a ele: se você vai lá, entrega isso.
Trecho 2 – depois apareceu uma testemunha, esta Araújo (a tradutora), contando uma história absurda, de ter ouvido, como tradutora, conversas entre funcionários da Telecom Italia que falavam de corrupção e propinas a políticos brasileiros. E que estas conversas chegaram do Brasil por meio de Angelo Jannone. A tradutora fala que conversas estavam armazenadas em uma pasta de computador chamada "Telegrafo". Os promotores não perceberam que a pasta já tinha sido entregue por mim, diz Jannone. E que conversas não eram entre executivos da Telecom Italia, mas de um amigo conversando com lobistas e executivos da Brasil Telecom, que contavam a ele como a Alcatel, a Ericsson, todas essas empresas de tecnologia, tinham que pagar propina para obter trabalhos na Brasil Telecom. E pagavam ao banco do Dantas. "Depois vou descobrir, analisando os documentos do processo de Milão, que o advogado de Bernardini viaja muito frequentemente para o Brasil e é amigo do Marcos Valério", diz Jannone.
Trecho 3 – diz ter sido preso por causa do Bernardini que contou "histórias absurdas". Depois, Dantas, que chegou à Itália "contando essa história fabulosa de que foi vítima de conjura preparada por Angelo Jannone contra ele, quando todo mundo sabe no Brasil que a investigação da Polícia Federal aconteceu independentemente da história da Parmalat", diz Jannone. Os promotores não vão aprofundar esses esforços no Brasil, porque na opinião deles o Brasil é país de corruptos, então não precisa fazer rogatórias no Brasil.
Trecho 4 – Jannone se diz vítima de declaração caluniosa do Dantas, que chegou na Itália afirmando que jornais brasileiros falavam que Jannone muito próximo à Polícia Federal. Era mentira, diz Jannone, que afirma ter tomado conhecimento dos documentos de investigação da PF através de um jornalista do JB.
Trecho 5 – quando foi fechado acordo entre Telecom Italia e Dantas, provavelmente já começou a estratégia para contornar as investigações do Ministério Público italiano. Essa estratégia teria que passar sobre a minha cabeça, diz Jannone.
Trecho 6 – "minha entrevista à Carta Capital não comprovava nada", diz ele. Disse apenas que Mainardi o procurou mais ou menso dois anos atrás, comentando aquilo que teria contado Bernardini sobre lobistas, políticos, essas declarações genéricas. "Olha, eu quero só confirmar..." Eu respondi: "Senhor Mainardi, eu não confirmo nada porque não é verdade. Eu jamais mandei pagar políticos ou funcionários públicos brasileiros".
Trecho 7 – saiu outra coisa interessante, que foi a entrega ao Mainardi desse material do inquérito italiano. Se descobrir quem entregou, se poderia entender muito melhor o jogo, diz Jannone. Seria interessante saber quem entregou ao Mainardi minha ordem de prisão, diz Jannone. Mesmo jornalistas italianos nada sabiam.
Trecho 8 – No final de 2007, o advogado do Bernardini, falando com os promotores - está escrito isso - fala "olha, a última vez que fui ao Brasil, encontrei Marcos Valário, que foi por sua vez aproximado por uma pessoa que pedia informações sobre o inquérito de Milão. Porque ele está dizendo isso? O que tem a ver o advogado do Bernardini com o Marcos Valério? Isso seria interessante aprofundar, diz Jannone.
Trecho 9 – nunca fui fonte da Janaina Leite, diz ele. "Ela me procurou quando chegou na Itália, me procurou por telefone, querendo uma entrevista. Eu disse que, sendo que trabalhava na Telecom Italia naquela época, não podia dar entrevista. Ela disse que queria comentário sobre o que declarou Bernardini, que dizia que pagou propina. Disse que Bernardini era mentiroso e podia demonstrar. Se você vai escrever isso, vou processar a "Folha de São Paulo", disse ele. "Depois, fui avisado do Brasil de que Janaína Leite não era uma jornalista independente, falando dessa forma. Me disseram para tomar cuidado. Ela me escreveu email dizendo que só queria descobrir a verdade, que estava disponível quando quisesse conversar. Disse que a verdade seria descoberta em processo, não em jornais.
Trecho 10 – Menciona o papel de Bernadini nesse inquérito.
Trecho 11 - Fala sobre os honorários do advogado Marcelo Elias. A Telecom Italia, de Provera, quando guerreava com Dantas resolveu bancar as custas judiciais de Luiz Demarco contra Dantas na Inglaterra. No meio do caminho houve o acordo de paz entre Provera e Dantas. Mas Demarco continuou a guerra e exigiu que a Telecom Italia pagasse os advogados contratados, conforme o combinado. Jannone confirma que todos os pagamentos foram comprovados. E diz ter pago Elias em um paraíso fiscal para não expor a empresa. Mainardi sempre se referia a esses honorários (US$ 100 mil) como sendo destinados a propinas no Brasil.

enviada por Luis Nassif
03/07/08 10:19
O caso Veja: mais um capítulo
O novo capítulo sobre a revista Veja conta como ela se aliou ao governador de Rondônia, Ivo Cassol – acusado de inúmeros crimes e desmandos – para cometer um assassinato de reputação contra um procurador federal que combatia o crime.
Aqui, para ler no Blog
Aqui, para ler no Googlepages.
enviada por Luis Nassif
01/07/08 15:11
O caso Ivo Cassol
No capítulo O Araponga e o Repórter mostrou-se como Veja não relutou em se associar ao banditismo e ao submundo.
Lá, se contava que a principal fonte da revista - no episódio do vídeo sobre o funcionário dos Correios recebendo propina - foi um empresário que, poucos anos depois, foi flagrado em uma das operações da Polícia Federal. O material fornecido serviu para o lobista afastar concorrentes e o empresário restaurar seu esquema de corrupção - que funcionou sem ser incomodado até a PF estourá-lo.
Esse jogo de alianças espúrias com o submundo não terminou aí. A prática de vender a alma ao diabo em troca de informações e manipulá-las, atropelando princípios básicos de jornalismo, prosseguiu mesmo após a catarse do "mensalão".
É o que ocorreu no episódio recente, em que Veja se aliou ao governador de Rondônia , Ivo Cassol (sem partido ex-PPS).
No caso do grampeador, nas duas pontas não havia mocinhos. No caso do governador, a revista aceitou deliberadamente assassinar a reputação de um homem da lei, de reputação ilibada, que durante anos, combateu duramente o crime organizado de Rondônia.
Quem é Ivo Cassol, o governador de Rondônia?

Em 2004 foi acusado de comandar um esquema de extração clandestina de diamantes e contrabando de ouro na reserva indígena Roosevelt, dos Cintas-Largas (clique aqui).
Em 2005 foi julgado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), acusado de ter cometido irregularidades quando prefeito de Rolim de Moura (clique aqui).
Em 2007, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, denunciou-o ao STF (Supremo Tribunal Federal) por compra de votos, formação de quadrilha e coação de testemunhas (clique aqui).
No dia 13 de abril de 2008, reportagem do Fantástico sobre a Operação Titanic, da Polícia Federal, comprometia Cassol até a medula (clique aqui):
"Exclusivo. Você vai conhecer os bastidores da Operação Titanic. A ação da Polícia Federal acompanhou os passos de uma quadrilha que envolveu até um governador de estado no golpe dos carrões importados.
Dentro de um galpão estão dezenas de milhões de reais em forma de carros e motos importados. São super máquinas que chegam a valer R$ 2 milhões no Brasil. Super máquinas subfaturadas.
“30% a 40% menores aos preços de mercado”, diz a procuradora da República (ES) Nádja Machado Botelho.
A Justiça investiga a participação de um governador e do filho e do sobrinho dele na obtenção de facilidades para o esquema.
Nos vídeos e fotografias da investigação a que o Fantástico teve acesso, você vai saber como a Polícia Federal seguiu o filho do governador de Rondônia, Ivo Cassol, durante a chamada Operação Titanic, para desmascarar a quadrilha da sonegação (...).
Adriano se tornou conhecido nacionalmente em 2006, ao ser flagrado agredindo uma mulher depois de uma batida de trânsito. No mesmo ano, a Polícia Federal apreendeu seis carros de luxo que ele havia importado. Uma lancha que ele comprou do megatraficante colombiano Juan Carlos Abadía, capturado em 2007, também foi apreendida".
Este é Ivo Cassol.
A reportagem armada
No dia 23 de abril de 2008 Cassol já era conhecido nacionalmente, através de reportagem-denúncia de um dos programas de maior audiência da televisão, o Fantástico, divulgado apenas dez dias antes, quando começou seu jogo com a Veja.
A revista denunciava um suposto seqüestro falso de um procurador federal e um funcionário da ONU pelos índios cintas-largas. Segundo a revista, o seqüestro teria sido simulado para dar evidência aos personagens.

"Os cintas-largas, de Rondônia, estão entre as etnias indígenas mais hostis do Brasil. Em 2004, eles massacraram 29 garimpeiros a tiros, flechadas e pauladas. Com esse histórico, não tiveram dificuldade em ganhar as páginas dos jornais do mundo inteiro, em dezembro do ano passado, quando anunciaram o seqüestro de um membro do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, um procurador da República e outras três pessoas".
As provas apresentadas pela revista eram um vídeo (de dois anos antes, que nada tinha a ver com os cintas-largas), fotos do representante da ONU tomando banho de rio e do procurador falando ao celular.
"Numa das cenas, que ilustra esta página, vê-se o funcionário da ONU, o espanhol David Martín Castro, muito satisfeito, tomando banho de rio com seus supostos carcereiros. No dia em que deixou a reserva, Martín Castro fez um discurso emocionado em homenagem a seus anfitriões. "Agradeço pelas ‘picanha’ e pela festa", disse. As "picanha" às quais ele se referiu vieram de bois abatidos – um por dia – pelos índios para comemorar sua "visita" à aldeia. Depois do discurso, ao som de palmas e brados de felicitação, os cintas-largas presentearam o espanhol com um colar. O procurador Reginaldo Trindade recebeu tratamento semelhante.
O texto continha cacos primários, toscos, típicos da atual fase da revista, como esta pérola:
"Em janeiro, Márcio Meira, presidente da fundação, nomeou para o cargo o cacique Nacoça Cinta-Larga, um dos indiciados pelos assassinatos dos garimpeiros. Como se vê, esse Nacoça só não é paçoca porque as autoridades da região pouco fazem para impor o respeito às leis".
Em nenhum momento se mencionava o nome do governador Ivo Cassol. E a versão do procurador foi desconsiderada.
Ele afirmava ter ido à aldeia, acompanhado do representante da ONU, para convencer os cintas-largas a abandonarem a extração ilegal de madeira e de diamantes. Levava a proposta do governo, de alternativas à exploração irregular.
Houve uma discussão com os índios. A liderança principal defendia o fim imediato da extração e negociação com governo. Outro grupo defendia que devia continuar até ter garantia maior de que o governo iria cumprir a sua parte. Concluiu-se que só poderiam aceitar na presença do presidente da Funai. A posição dos índios foi então de que ninguém sairia dali até o presidente da Funai chegar.
Não foi um seqüestro, no sentido clássico, mas uma restrição de liberdade, para poder resolver de vez a questão. Nem o representante da ONU foi proibido de tomar banho de rio, nem o procurador de falar ao telefone.
Montando o dossiê
Saber quem é esse procurador, e seus embates com Cassol, ajudará a entender a montagem.
Antes do esquema ser desbaratado pela Operação Titanic, da Polícia Federal, a única força a enfrentar Cassol e seu grupo político era o procurador Trindade. Especialmente em questões envolvendo a área indígena.
Há anos Cassol buscava desmoralizá-lo, em uma típica tática de assassinato de reputação, visando enfraquecer os inquéritos contra ele.
A matéria da Veja foi inteiramente baseada em documentos e vídeos levantados por uma jornalista (na verdade, uma cabeleireira), de nome Ivonete Gomes, de um site chamado “Rondoniagora” (www.rondoniagora.com).
A jornalista-cabeleireira cumpre para Cassol o mesmo papel que o blogueiro Reinaldo Azevedo para a Veja: tentativas de assassinato de reputação de adversários. Sempre que pretende atingir a reputação de alguém, ou mandar recados, Cassol a aciona.
Quando estourou a Operação Titanic, a Polícia Federal de Rondônia abriu um inquérito, no qual a farsa montada veio à tona. Ouvido, um comerciante de pedras contou como Ivonete preparou o dossiê contra o procurador Trindade.
Para fabricar o dossiê, Casso se valeu das verbas publicitárias do Estado para financiar um "documentário" sobre a extração ilegal de diamantes na reserva Cinta Larga e colocou oficiais da PM e funcionários cooptados da Funai para buscar informações que pudessem ser usadas contra o procurador Trindade. Na investigação aberta pela PF, constatou-se que Ivonete Gomes, a jornalista-cabeleireira, forçava as pessoas a falarem mal do procurador.
Montado o dossiê, foi encaminhado à revista Veja, juntamente com fitas de vídeo, que não corroboravam a tese da revista sobre o "seqüestro fajuto".
O caminho para conquistar a cumplicidade da Veja foi fácil. Bastou insinuar que o procurador era ligado ao PT e Cassol um agente da modernidade contra o atraso representado pelos índios cintas-largas. E, depois, confiar no amadorismo, na falta de discernimento e de isenção da direção da revista.
O resto ficou por conta da parcialidade da revista.
Trindade foi contatado na sexta de manhã, com o prazo para apresentar sua defesa até o meio dia. Conseguiu, no prazo concedido, enviar 17 laudas de explicações para a Veja. Não saiu uma linha, nem na seção de cartas.
No dia seguinte, e por vários dias depois, o site Rondoniagora replicou a notícia de Veja para instigar a população contra o procurador. Cassol usou o quanto pôde a matéria.
Armação desmontada
No dia 25 de junho último, a revista CartaCapital publicou reportagem de Leandro Fortes, enviado especial a Rondônia (clique aqui). Leandro tinha ido com a incumbência de levantar o submundo político montado por Cassol. Acabou identificando a farsa do dossiê:
"Instalada em uma lojinha de subsolo na zona rural do município de Espigão D’Oeste, em Rondônia, onde negocia a compra e venda de diamantes, Edvaneide Vieira de Oliveira, de 35 anos, foi convocada pela Polícia Federal, há pouco mais de um mês, para depor.
No depoimento à PF, Edvaneide disse ter sido procurada pelas repórteres Ivonete Gomes e Marley Trifílio, ambas do Rondoniagora, noticiário francamente favorável ao governador Ivo Cassol (sem partido), em dezembro de 2007, para uma “videorreportagem”. Segundo a comerciante, as duas, no entanto, se apresentaram como repórteres do jornal O Estado de S. Paulo e pediram a ela para falar sobre um seqüestro sofrido pelo procurador Reginaldo Trindade no fim de 2007, pelos índios cinta-larga, juntamente com um representante das Nações Unidas, o espanhol David Martín Castro. (...)
No depoimento tomado pelo delegado federal Rodrigo Carvalho, Edvaneide de Oliveira afirmou que Ivonete Gomes (“meio gordinha, cabelo com reflexos loiros, comprido”), e Marley (“gordinha, cabelo com reflexos, mais curto”) queriam que ela “inventasse uma história para comprometer algum político, empresário ou autoridade conhecida” e, também, acusasse o procurador Trindade de estar “fazendo lobby para alguma pessoa forte”. Segundo a comerciante, Ivonete revelou ter ido lá “só para isso”. Mais adiante, relatou Edvaneide, a repórter teria apresentado uma lista de nomes para ligar o suposto lobby de Trindade a “alguém muito forte”, mas ela não concordou em referendar nenhum dos nomes. A comerciante acusa as jornalistas, ainda, de terem oferecido dinheiro em troca de um depoimento contra o procurador".
Acabo de conversar com o procurador Reginaldo Trindade, de Rondônia. Desde que saiu a matéria da Veja, ele não consegue mais trabalhar. A armação contra ele foi ampla.
A matéria da Veja saiu no domingo. Na quinta-feira, portanto em apenas quatro dias, o governador Ivo Cassol já enviava uma denúncia para o Conselho Nacional do Ministério Público, baseada na reportagem da Veja. Desde então, Trindade está com todo seu tempo tomado para responder à representação do Conselho.
A maneira como Cassol se aproveitou da reportagem da Veja não é inédita. Na série “O Caso de Veja” menciono vários exemplos de como reportagens eram utilizadas como peças para manipulação da Justiça.
A denúncia encaminhada por Cassol ao CNMP continha todos os elementos mencionados pela revista, mais alguns adicionais. De seu lado, por mais que tentasse, o procurador Trindade não conseguiu que a revista lhe enviasse o material, nem mesmo após a publicação da matéria, sob a alegação de “sigilo de fonte”.
Na mesma quinta-feira, coincidentemente, reuniu-se em Porto Velho a SubComissão do Senado para Apurar a Crise Ambiental da Amazônia. O relator era o senador Expedito Junior – que, logo depois, seria envolvido com Cassol na denúncia formulada pelo procurador geral da República. Na reunião, Cassol exigiu em altos brados punição para Trindade, com base nas denúncias publicadas pela revista. Segundo ele, Trindade estaria estimulando a exploração de madeiras pelos índios.
Na fronteira da civilização, em pleno faroeste brasileiro, um homem da lei, um procurador federal, correndo riscos de vida e de reputação, buscando cumprir sua missão, de impor as leis da Federação sobre a selvageria de quadrilhas. E foi alvejado pela revista Veja. Sua reputação foi manchada em todo o país, foi-lhe suprimido o direito de defesa durante a matéria e após. A revista não publicou uma retificação sequer.
Em maio, após uma manifestação de todo MP de Rondônia, Cassol cessou a campanha contra Trindade.
Mas uma conta ficou em aberto: os ataques de Veja. Até hoje não se publicou nenhuma retificação, nenhuma carta contestando os ataques.
A defesa do procurador
No dia 4 de julho passado, o Procurador Reginaldo Trindade apresentou sua defesa co Conselho Nacional do Ministério Público.
São 109 páginas. O item 9 aborda o “comportamento não condizente do repórter responsável pela matéria na revista Veja, José Edward”. Clique aqui.
A relação de manipulações é ampla.
Fato 1 - O repórter entrou em contato com o procurador, informando-o do teor da matéria e querendo ouvir sua versão. O procurador solicitou que as perguntas fossem feitas por escrito, para evitar distorção em suas palavras. Vieram as perguntas.
Seguiram as respostas, em várias páginas. Nenhuma resposta, nenhuma ponderação foi incluída na matéria. Na manhã de sexta-feira, 18 de abril, o repórter entrou em contato com o procurador de novo. Mas provavelmente a edição da revista já tinha fechado.
Fato 2 - O repórter ligou para o motorista Mauro Bueno Gonçalves, para tentar levantar se houve encenação na detenção do procurador e do representante da ONU.
O relatório traz trechos do depoimento do motorista no inquérito aberto:
“E passado já alguns meis (sic) no dia 18/04/08 fui procurado pelo um reporte da VEJA por nome de José que perguntou como foi que aconteceu falei como foi ele perguntou sobre Reginaldo e o David como eles ficarão. Dise o que presenciei e o que vi. Das pergunta que o reporte fez a mim nada foi dito pela VEJA o que esta no site. São palavra diferente.” (fls. 35 dos autos; sic).”
A chave do carro tinha sido tomada à força do motorista pelos índios. A reportagem ignorou a informação. O motorista informou de golpes violentos desferidos pelos índios na mesa e nos livros do procurador. A informação não foi considerada.
O motorista prestou depoimento à Polícia Federal, voltando a reiterar o comportamento do repórter:
“QUE sim, foi procurado via telefone por um repórter da revista Veja, o qual se apresentou como José e lhe fez algumas perguntas, as quais indagavam acerca de um 'falso seqüestro' cometido pelos indígenas contra o Procurador da República e um Representante da ONU, sendo que o declarante respondeu ao jornalista que o seqüestro realmente ocorreu, nada foi fajuto, não havendo indícios de que tudo tenha sido tramado; QUE o jornalista continuou a fazer perguntas sobre o seqüestro, indagando acerca da alimentação dos mesmos durante o tempo em que permaneceram na aldeia, além de outras perguntas pertinentes, sendo que lhe foi respondido da mesma forma em que está respondendo aos quesitos deste termo de declarações; QUE após, publicada uma matéria pela revista Veja, distorcendo as respostas que o declarante teria dado ao referido jornalista.” (fls. 36/37 da 1ª parte de documentos que instrui a presente).
Fato 3 - O repórter chegou a procurar o próprio Almir Suruí, chefe indígena, encaminhando perguntas por e-mail. Almir negou firmemente ter havido simulação do seqüestro. Mas sua resposta também não foi levada em consideração.
Fato 4 - Também foi consultada Ivaneide Bandeira Cardozo, a “Neidinha”, da ONG indígena Kanindé. Seu depoimento foi desconsiderado. Ela enviou carta ao procurador:
“Fui entrevistada pelo repórter José Edward da Revista Veja (MG), no dia 10 de abril, que fez a mesma pergunta, e respondi que não era verdade, que havia invasão de madeireiros por conivência da FUNAI e alguns índios.” (fls. 74 da 1ª parte dos documentos ora apresentados)”.
Ivaneide enviou um segundo e-mail ao procurador, manifestando sua impressão de que o repórter fosse ligado ao governador Ivo Cassol.
A percepção geral em Rondônia foi dessa cumplicidade, devido à coincidência de, apenas quatro dias após a publicação da reportagem, o governador de Rondônia formulou representação à Sub-Comissão do Senado para Acompanhar a Crise Ambiental na Amazônia “calcada na reportagem, mas lastreada em diversos documentos e vídeos “não exibidos pelo site da revista”.
Não foi a primeira vez que Veja atuou dessa maneira. No episódio de assassinato de reputação de Edson Vidigal (clique aqui), a revista anunciava uma representação contra ele, no Conselho Nacional de Justiça, que foi feita dias depois, mas tomando por base a própria reportagem da revista – em um evidente conluio com as fontes, no episódio em questão provavelmente Daniel Dantas.
enviada por Luis Nassif
28/05/08 22:20
O japonês da Aclimação e o Mecenas
8/04/1994
O japonês da Aclimação vai ajudar a brava sociedade brasileira a purgar seus erros e permissividades.
Desconfiou-se que em sua escolinha donos, professores e pais de aluno praticavam abusos sexuais contra pequenos alunos de 4 anos de idade. Um roteiro para Marques de Sade nenhum botar defeito.
Não há nenhuma prova conclusiva para as acusações. Não há sequer laudos que comprovem definitivamente a prática de abusos sexuais. Um exame comprovou dilatamento de um por um no ânus de uma das crianças.
Pode ser vestígio de penetração, seguramente não por parte de um adulto. Pode ser fruto de uma assadura.
Depois disso, há apenas informações arrancadas de crianças de 4 anos por pais desesperados.
Há o quadro já conhecido de policiais que se deslumbram com episódios que podem lhe render popularidade, e de cobertura jornalística burocrática que se vale exclusivamente da versão oficial.
Mas pode haver algo de maior impacto, para policiais e jornalistas, do que a suposição de crianças de 4 anos—que poderiam ser filhos dos próprios leitores—sendo utilizadas em sessões de filmes pornográficos?
Não há nenhuma foto, nenhum filme que comprove a versão, mas o que importa? Como tem-se 50% de possibilidade do japonês da Aclimação ser culpado, está-se cometendo apenas 50% de injustiça.
E toca-se a linchar o japonês e os pais de outros alunos de 4 anos, valendo-se dessa grande prerrogativa de sentir-se fortalecido na companhia da unanimidade, para melhor poder exercitar o supremo gozo de participar de um linchamento, sem riscos e sem remorsos—uma espécie de realidade virtual da Disneyworld com vidas alheias, em que se vive a sensação de perigo, sem correr riscos.
Pouco importa se o resultado final dessa investigação vier eventualmente a comprovar a inocência dos acusados. Se errar, terão o álibi de estar errando em ampla companhia.
Lei e ética
O combate à corrupção não se faz em cima de leis, mas de princípios éticos desenvolvidos pela sociedade como um todo. O primeiro círculo a coibir prticas erradas é a família. O segundo, o círculo social. Se houver conivência com desvios, não há aparato legal que resolva.
Em São Paulo, um banqueiro foi acusado de integrar o esquema PC Farias junto a fundos de pensão e ao sistema Telebrás. Um grande empresário carioca, homem de vida pública conhecida, e de boa reputação, acusou-o frontalmente de ter exigido propinas para liberar uma licitação. Outro empresário, do setor de telecomunicações, acusou-o de tê-lo procurado em nome do próprio PC Farias.
Nenhuma medida foi tomada pelo Ministério Público Federal para apurar os fatos. Fosse apenas um empresário paulista, o banqueiro provavelmente teria sua vida investigada. Mas é também genro de um senador da República.
A brava elite paulista transformou-o em seu mecenas particular, sem se preocupar sequer em cobrar-lhe explicações cabais para as acusações. Ele é personagem ativo das colunas sociais, sua casa é freqüentada por personalidades conhecidas da vida intelectual e empresarial, suas festas elogiadíssimas, assim como suas virtudes de enólogo. Tem dinheiro e égrande amante das artes. Um grande praça, sem dúvida.
Não se assuma a presunção da culpa. Pode ser que seja inocente. Pode ser que seja culpado. O fato é que em nenhum momento as suspeitas provocaram sequer o constrangimento, que é o sinal mais tênue de existência de princípios éticos regendo relações sociais.
Mas pouco importa. O poderoso japonês da Aclimação está aí mesmo, para mostrar que com a sociedade brasileira não se brinca.
enviada por Luis Nassif
09/05/08 23:36
O caso FARCs
Na edição de 16 de março de 2005, Veja cometeria mais um de seus malabarismos editoriais, com a matéria “Tentáculos das FARC no Brasil”
Foi matéria de capa. A ilustração era uma metralhadora e o texto incriminador:
“Espiões da ABIN gravaram representantes da narcoguerrilha colombiana anunciando doação de 5 milhões de dólares para candidatos petistas na campanha de 2002”.
Depois, outro texto:
“PT: militantes serão expulsos se pegaram dinheiro das Farc”.
Havia um excesso de textos na capa, ferindo princípios básicos de clareza editorial. A revista estava em plena campanha, na sucessão de capas sobre Lula. E pouco se lhe interessava saber da consistência ou não das matérias. Nas páginas internas, ficaria mais claro o estilo Veja de criar matérias através da manipulação de ênfases.
Jogam-se acusações enfáticas. Depois, algumas ressalvas para servir de blindagem contra ações judiciais, seguidas de novas acusações taxativas.
O que se tinha, objetivamente, era um informe da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), uma página, três parágrafos e nada mais, na qual um agente infiltrado relatava um encontro em uma chácara, com um padre supostamente ligado às FARCs. O padre era conhecido como um mitômano, há muito tempo afastado do contato com as FARCs.
No encontro, teria mencionado o suposto financiamento à campanha do PT. Não havia nenhuma indicação a mais sobre isso. Na ABIN, não se levou a sério o informe.
Para sustentar a matéria, Veja assegurava que o informe tinha recebido tratamento relevante da ABIN e que havia documentos comprovando as doações. Não aceitou a palavra oficial da ABIN, de que nunca levou a sério o informe.
Esses documentos, comprovando as supostas doações, nunca apareceram, o caso morreu de morte morrida. E o fecho se deu este ano, com a curiosa explicação do diretor de redação Eurípedes Alcântara para o papel de Veja no episódio.
Mas, antes disso, acompanhe o desenrolar dessas matérias.
O ping pong das acusações
Nas páginas internas, a chamada era forte.
Nas páginas internas, a chamada era forte.

”Documentos secretos guardados nos arquivos da Abin informam que a narcoguerrilha colombiana Farc deu 5 milhões de dólares a candidatos petistas em 2002”
A matéria começava com afirmações taxativas:
”Nos arquivos da Agência Brasileira de Inteligência em Brasília há um conjunto de documentos cujo conteúdo é explosivo. Os papéis, guardados no centro de documentação da Abin, mostram ligações das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) com militantes petistas. (...) Em apenas uma folha e dividido em três parágrafos, esse documento informa que, no dia 13 de abril de 2002, um grupo de esquerdistas solidários com as Farc promoveu uma reunião político-festiva numa chácara nos arredores de Brasília. Na reunião (...) o padre Olivério Medina, que atua como uma espécie de embaixador das Farc no Brasil, fez um anúncio pecuniário. Disse aos presentes que sua organização guerrilheira estava fazendo uma doação de 5 milhões de dólares para a campanha eleitoral de candidatos petistas de sua predileção. A notícia foi recebida com aplausos pela platéia. Faltavam então menos de seis meses para a eleição. Um agente da Abin, infiltrado na reunião, ouviu tudo, fez um informe a seus chefes, e assim chegou à Abin a primeira notícia de que as relações entre militantes esquerdistas, alguns deles petistas, e as Farc podem ter ultrapassado a mera simpatia ideológica e chegado ao pantanoso terreno financeiro”.
O "anúncio pecuniário" - segundo a expressão da revista - era mencionado em três documentos da ABIN.
"Num deles, está descrita a forma de pagamento: o dinheiro sairia de Trinidad e Tobago, um pequeno país do Caribe, e chegaria às mãos de cerca de 300 pequenos empresários brasileiros simpáticos ao PT, que, por sua vez, fariam contribuições aos comitês regionais do partido como se os recursos lhes pertencessem".
Assim como na matéria sobre os “dólares de Cuba”, a operação era inverossímil. Como se poderia manter sob sigilo uma operação que envolveria 300 pequenos empresários brasileiros? Fugia ao bom senso. Mas a revista não se deixava intimidar e mandava o bom senso às favas:
Em outro documento, aparece a informação de que o acerto financeiro fora celebrado entre membros do PT e das Farc durante uma reunião realizada numa fazenda no Pantanal Mato-Grossense – e que os encontros de cúpula seriam articulados com a ajuda de Maria das Graças da Silva, uma funcionária da Câmara dos Deputados em Brasília que já militou no PC do B e seria amiga muito próxima do "comandante Maurício", apontado como a maior autoridade das Farc no Brasil.
Para se prevenir contra eventuais ações judiciais, incluíam-se as ressalvas, formando o estilo pterodáctilo já descrito em outro capítulos:
A apuração comprovou a reunião, o local, a data e os personagens. Só não encontrou indícios suficientemente sólidos de que os 5 milhões de dólares tenham realmente saído das Farc e chegado aos cofres do PT. A doação financeira é dada como realizada pelos documentos da Abin, mas a investigação de VEJA não avançou um milímetro nesse particular. Pode ter sido apenas uma bravata do padre Olivério Medina, codinome de Francisco Antônio Cadenas Colazzos, para alegrar seus convivas esquerdistas? Pode. Além da convocação manifestada nos documentos da Abin, a revista não encontrou elementos consistentes para que se faça uma afirmação sobre esse aspecto.
O expediente era o mesmo adotado na capa sobre o falso dossiê das contas de autoridades brasileiras no exterior. Depois da ressalva salvadora, voltavam as acusações, em um ping pong devastador de princípios jornalísticos e de lógica.
Os documentos mostram que as informações ali contidas foram checadas (pela ABIN) com afinco. (…) O documento 0095/3100, de 25 de abril de 2002, o principal entre todos os que narram as ligações entre militantes petistas e as Farc, passou por todas essas etapas e acabou com um carimbo de "secreto". Isso significa que suas informações eram críveis e seu conteúdo tinha consistência suficiente para ser levado ao conhecimento do presidente da República.
Na edição seguinte, de 23 de março de 2005, a matéria receberia uma suite no mesmo estilo. Primeiro, um sonoro desmentido da Abin:
VEJA noticiou que o auxílio financeiro aparecia no documento número 0095/3100, datado de 25 de abril de 2002 e classificado como "secreto". Tudo isso foi confirmado pelo general (Jorge Armando Felix), mas houve um adendo categórico. O general disse que a informação sobre a doação de 5 milhões de dólares não foi levada a sério pela Abin, que a encarou como "um boato" e arquivou o documento.
A revista não aceitava as explicações
A explicação oficial até faz sentido, mas não é verdadeira.
Na semana passada, VEJA voltou a entrevistar o espião que, infiltrado no movimento sindical em Brasília, abastecia a Abin com informações sobre as Farc e suas relações financeiras com o PT. (…) Esquerdistas convidaram-no para participar da criação de um comitê em defesa da guerrilha colombiana. O espião topou e passou a participar de reuniões, quase sempre reservadas. Até que sua rotina foi quebrada, no dia 13 de abril de 2002, quando participou da reunião político-festiva de esquerdistas pró-Farc na chácara Coração Vermelho, situada nos arredores de Brasília. Foi nessa reunião que o espião ouviu o padre Olivério Medina, embaixador da guerrilha no Brasil, falar da doação de 5 milhões de dólares para a campanha de Lula em 200.
Veja informava ter entrevistado em cinco ocasiões o coronel Eduardo Adolfo Ferreira, que recebia os informes do espião:
Os memoriais, nome dado a um conjunto extenso de relatórios, eram encaminhados diretamente à então diretora da Abin, Marisa Del'Isola. "A Abin em São Paulo até rastreou o que seria uma parte do dinheiro das Farc para o PT." O coronel contou que, com a ajuda do setor de inteligência da Polícia Federal, a Abin obteve três ordens de pagamento, somando cerca de 1 milhão de dólares, com indícios de que se tratava de parte do dinheiro das Farc para o PT. "Não podemos afirmar que era o dinheiro da guerrilha mesmo. Eram indícios. Indícios fortes, mas a investigação parou quando o PT ganhou as eleições e eu saí da Abin", contou. (…)
O coronel diz que, nos arquivos da Abin, há gravações em áudio das promessas das Farc de ajudar o PT e, também, cópias das três ordens de pagamento.
Com acesso à fonte, por que a revista não exigiu a apresentação das cópias - ainda que sob o compromisso de não publicá-las? Qual a razão para não ter ido atrás do elemento que não apenas consolidaria a capa, como seria o grande furo da reportagem?
Na semana passada, o espião do caso Farc disse que está disposto a contar tudo o que sabe no Congresso, desde que seu depoimento seja tomado em reunião fechada. Diante dessa possibilidade, VEJA consultou o senador Demostenes Torres, do PFL de Goiás, membro da comissão que apura a história. O senador disse que, publicada a reportagem da revista, faria o pedido para ouvir o espião. Disse também que convocaria o coronel Ferreira. Diz o senador: "As declarações dos dois, se confirmadas, revelam que a Abin compareceu à comissão do Congresso e ocultou a verdade dos parlamentares. É grave". É grave mesmo.
Um factóide que não teve suite. Nem da própria revista.
Escrever pensando
No dia 24 de janeiro de 2008, o diretor de redação de Veja, Eurípedes Alcântara, proferiu palestra para os alunos do Curso Abril de Jornalismo (clique aqui).
No intertítulo “As marcas de Veja”, Eurípedes descreve a receita de jornalismo praticado pela revista.
O Diretor de Redação expôs alguns pontos essenciais para a produção da revista. Um deles é o controle que o repórter precisa ter sobre a matéria. "Não é a pauta ou a fonte que têm de dominar o jornalista", disse.
Provavelmente, nem a informação pode servir de limitação. Segundo a aula de Eurípedes, Veja pratica o conceito de “escrever pensando”:
Outro ponto é a diluição de conteúdo opinativo em meio às reportagens, a qual Eurípedes chama de "escrever pensando". O jornalista ponderou sobre as diversas interpretações dos críticos sobre determinadas reportagens da revista. "Você só pode ser cobrado por aquilo que escreve. Não pelo que interpretam".
Cobrado pela capa das FARCs, explicou o que a revista fez:
"A Veja disse que a Abin estava investigando. Não disse que Lula recebia de guerrilheiros. Isso é uma interpretação".
De fato, tudo não passou de uma grande interpretação. Com direito a capa.
enviada por Luis Nassif
21/04/08 22:57
As relações incestuosas na mídia
O modelo de assassinato de reputações, como arma de disputas comerciais, alcançou seu auge na recente fase da revista Veja, especialmente através do colunista Diogo Mainardi.
O último capítulo dessa novela foram colunas e podcasts de Mainardi, a respeito de um dossiê que continha trechos de um inquérito sigiloso do Ministério Público Italiano.
Conforme demonstrado em dois capítulos da série (O post-it de Mainardi e Lula é meu álibi), ao contráriodo que Mainardi afirmava em sua coluna, o dossiê foi escaneado no Brasil, rearrumando papéis do inquérito original da Itália. E a prova maior é que seu conteúdo foi divulgado no mesmo dia em que o arquivo foi gravado, no site de uma ex-jornalista da “Folha”, Janaína Leite.
Tempos depois, a revista Carta Capital entrevistou Angelo Jannone, ex-chefe de Segurança da Telecom Italia, nos tempos de Tronchetti Provera. A entrevista de Jannone foi aproveitada por ambos para tentar demonstrar que os inocentava.
Sobre o caso italiano dedicarei um capítulo especial, dada à sua aparente complexidade e por demonstrar o jogo complicado do qual Mainardi tornou-se participante, sabe-se lá com que propósitos.
O que interessa, neste capítulo, é a explicitação das relações de Mainardi com Janaína, e de ambos com Daniel Dantas.
Vamos entender melhor quem é a parceira de Mainardi nesse jogo.
No seu blog, Janaína Leite se apresenta como “consultora”. Não há nenhuma indicação sobre quem são seus clientes. No seu período na "Folha" atuou em uma série de matérias francamente suspeitas, conforme se demonstrará a seguir. Todas elas seguiam a mesma linha de denúncias utilizada por Mainardi quando trata do tema telefonia.
Vamos à análise de quatro casos.
O caso Cecília Melo

Conforme explicado no capítulo “O post-it de Mainardi”, há dois inquéritos em andamento, um no Brasil, outro na Itália.
O do Brasil é conduzido pela Polícia Federal e Ministério Público Federal em São Paulo, sobre grampos, quebras de sigilo, a partir do dossiê Kroll, divulgado pela "Folha" anos atrás. O da Italia pelo MP italiano, originalmente era sobre as estripulias da Parmalat italiana. Depois, graças a uma manobra engenhosa, foram incluídas as as operações da Telecom Italia no Brasil. No inquérito italiano há grampos ilegais e outras particularidades que poderiam provocar a anulação do inquérito brasileiro - caso fossem juntadas as peças.
Há uma tentativa de misturar os dois inquéritos. Por isso mesmo, toda a luta da PF e do MP é para impedir essa contaminação.
Essa tentativa ficou clara em matéria de Janaína Leite de 24 de julho de 2007 (clique aqui) com o próprio Daniel Dantas, preocupado com a possibilidade dos fundos de pensão fecharem um acordo com o Citigroup que estreitaria sua margem de manobra na Brasil Telecom.
Dois trechos merecem destaque. O primeiro, demonstrando que Dantas atuou pessoalmente para que a atuação da Telecom Italia no Brasil fosse incluída no inquérito italiano.
O banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity, enviou à Procuradoria Geral da República um pedido para que o Ministério Público investigue supostos atos ilegais praticados no âmbito da disputa entre os sócios da Brasil Telecom, operadora de telefonia fixa que atende três regiões do país.
A segunda, ao mencionar uma testemunha-chave importante:
A principal testemunha dos procuradores italianos, Marco Bernardini, confirmou à Folha ilegalidades no Brasil.
Guarde essas duas informações, ambas obtidas da mesma fonte: a atuação de Dantas e o nome da tal testemunha-chave. Facilitará bastante para entender o próximo capítulo, especialmente quando Mainardi menciona suas misteriosas "fontes italianas".
O jogo jornalístico em torno do processo italiano consistiu dos seguintes lances.
Lance 1 – no dia 21 de setembro de 2006, matéria da Janaina Leite na Folha: “Polícia italiana prende 20 ligados à Telecom Itália” (clique aqui), a primeira matéria que saiu por aqui, da operação dos promotores italianos, e tentando mostrar correlação entre o escândalo da Parmalat e o dossiê Kroll, divulgado no Brasil.
Três grandes dúvidas ficam em aberto sobre as implicações da ação do Ministério Público italiano, que teria encontrado ligações de organizações que serviram a pagamentos de propinas no "Laziogate" --escândalo de compra de políticos envolvendo empresas privadas-- com os implicados na suposta rede de espionagem italiana.
No dia 22 de setembro de 2006, nova matéria: “Crise com tele leva Prodi a depor no Senado” (clique aqui). Nela, Janaína afirma o seguinte:
Anteontem, 20 pessoas foram presas na Itália acusadas de fazer parte do esquema de arapongagem. Segundo a Folha apurou, é possível que o escândalo respingue no Brasil. Isso porque o encarregado da segurança da Telecom Italia na América Latina, Angelo Janonne, está sendo investigado na esteira de seu chefe, Giuliano Tavaroli, tido como braço direito de Tronchetti Provera.
Em 2004, Janonne veio ao Brasil para entregar à Polícia Federal documentos mostrando que a Telecom Italia e integrantes do governo brasileiro vinham sendo espionada pela Kroll, contratada pela Brasil Telecom, então administrada pelo grupo Opportunity, do empresário Daniel Dantas.
À época, Janonne disse que as informações que repassava tinham sido entregues anonimamente à Telecom Italia. Mas a desconfiança dos promotores italianos, que têm poder de polícia em seu país, é a de que os dados foram obtidos a partir da atuação de espiões que atuavam, supostamente, com anuência da operadora de telefonia italiana.
Não informava como obteve informações dos promotores italianos.
Lance 2 – a desembargadora Cecília Melo dá sentença ordenando a anexação de um inquérito no outro. O argumento da desembargadora é justamente a reportagem de Janaína.
Lance 3 – outra matéria da Janaína, agora em reforço à decisão da desembargadora. É de 11 de dezembro de 2006: “Justiça pede dados sobre Telecom Italia” (clique aqui).
A 2ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região decidiu ontem, por unanimidade, requisitar oficialmente da Justiça italiana documentos relativos às investigações de suposta espionagem e supostos pagamentos ilegais feitos pela Telecom Italia no Brasil. Os magistrados, baseados em reportagens da Folha, também determinaram que o Ministério Público Federal tome providências para apurar possíveis ilegalidades promovidas pela tele no Brasil. Procurada, a Telecom Italia preferiu não comentar o assunto.
Lance 4 – Este ano, o Ministério Público e a Polícia Federal convocaram o executivo Rodrigo Bhering Andrade, que trabalha para o Opportunity. Pressionado, Andrade admitiu que Janaína o mantinha informado sobre as fontes que alimentavam o jornal de matérias contrárias ao Opportunity. Essas informações constam do inquérito.
A matéria de Janaína traz duas dicas importantes.
A primeira, a reiteração do nome da testemunha-chave:
Uma das principais testemunhas do Ministério Público italiano é o ex-investigador Mario Bernardini, que concordou em relatar detalhes dos esquemas engendrados dentro da Telecom Italia em troca de não ser preso. Em entrevista à Folha, ele sustentou o que havia dito aos procuradores: no Brasil, o chefe de segurança da tele ordenou a espionagem de ministros, banqueiros, jornalistas, executivos e concorrentes da Pirelli. Disse ainda que a tele italiana mantinha um esquema de pagamentos a políticos e servidores públicos por meio de advogados e consultores.
A segunda, a conexão com o senador Heráclito Fortes, reconhecido publicamente como sendo aliado incondicional de Dantas:
O assunto não deverá ficar restrito ao Judiciário. A Folha apurou que parlamentares brasileiros também pediram a remessa das informações, inclusive a íntegra dos depoimentos, à Italia. Na semana passada, o senador Heráclito Fortes (PFL-PI) viajou ao país para pedir ajuda a parlamentares.
Sobre Bernardini analisaremos no capítulo específico sobre o caso Jannone.
O Caso Márcia Cunha

Dois magistrados foram fundamentais para apear o Opportunity do controle da Brasil Telecom. Um, a desembargadora Márcia Cunha, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que deu a primeira sentença séria desfavorável a Daniel Dantas. O segundo, o Ministro Edson Vidigal, presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça). Como se recorda, Edson Vidigal foi vítima de um assassinato de reputação praticado pela revista Veja (capítulo O caso Edson Vidigal).
Vamos entender a participação de Janaína Leite no "assassinato de reputação" de Márcia Cunha, aproveitando o bom levantamento feito pelo jornalista Fábio Carvalho, em resposta a uma discussão entre blogs sobre um dos capítulos da série.
É uma série de matérias envolvendo a questão do acordo "guarda-chuva", que garantia ao Opportunity o controle da Brasil Telecom.
2/10/2005 – “Juíza acusa Opportunity de tentativa de corrupção”
A Folha publicou denúncia da magistrada que afastou Daniel Dantas do controle da Brasil Telecom. Embora a reportagem não seja assinada, foi produzida pela sucursal do Rio de Janeiro, a partir de notícia publicada por O Globo. A juíza acusa um suposto lobista de Dantas, que teria oferecido propina a seu marido (advogado aposentado, que teria gravado a conversa) para obter decisão favorável na briga contra os fundos de pensão e o Citigroup.
Duas informações são relevantes nessa matéria:
1. Opportunity disse desconhecer o homem identificado como Eduardo Rascovsky.
2. Segundo a assessoria do Tribunal de Justiça, “o Conselho da Magistratura se declarou incompetente” para examinar os argumentos que o Opportunity ofereceu contra a juíza Márcia Cunha. O caso, portanto, seria levado ao Órgão Especial do TJ.
7/10/2005 –“ Justiça analisa decisão de juíza contra Dantas”
Cinco dias depois, Janaína Leite é “enviada especial” ao Rio de Janeiro, invadindo um tema que estava sendo coberto pela sucursal do Rio. Provavelmente sob o argumento de que dispunha de informações especiais sobre o caso.
Diz ela:
1.“A Folha apurou que”, em setembro, antes das acusações da juíza contra o Opportunity serem publicadas por O Globo (e repercutidas na Folha, através da sucursal do Rio), o Conselho da Magistratura teria decidido, por unanimidade, contra Márcia Cunha.
2.“Por meio de sua assessoria, o Opportunity negou qualquer tentativa de aproximação com Márcia Cunha e disse que Rascovisky presta serviços ao banco.
Fábio anotava as contradições entre as duas matérias:
1.No dia 2, a assessoria do TJ/RJ informou que o Conselho da Magistratura havia se declarado INCOMPETENTE para analisar a reclamação do Opportunity. Ouvida, a defesa do banco disse DESCONHECER Eduardo Rascovsy.
2.No dia 7, Janaína Leite informa DECISÃO UNÂNIME do Conselho da Magistratura, tomada no mês anterior (na verdade, decisão de remeter para o Orgao). Já o Opportunity disse que Eduardo Rascovsky “presta serviços para o banco” em sua matéria. A retificação era importante porque, conforme se vê no capítulo “A Imprensa e o Estilo Dantas” havia reuniões freqüentes entre Rascovisky e o principal homem de Dantas para a disputa, Humberto Braz. A afirmação poderia ser facilmente desmascarada.
Janaína aproveitava para levantar um conjunto de insinuações contra a juíza, no mesmo estilo "dossiê" aplicado pela Veja no caso Edson Vidigal.
“Não é a primeira vez que MárciaCunha sofre questionamentos administrativos. A primeira foi no início dos anos 1990 e envolvia tentativa de fraude fiscal. A juíza também foi alvo de críticas por aceitar passagens de cortesia da Varig quando julgava processos envolvendo a companhia aérea”, escreve a repórter.
Na entrevista com a desembargadora, fica nítida a intenção de Janaína de utilizar as perguntas para fabricar insinuações.
“Magistrada vê tentativa de desmoralização” (clique aqui)
A juíza Márcia Cunha disse considerar "ofensivo" qualquer questionamento sobre quem é o autor da sentença assinada por ela que favoreceu os fundos de pensão na briga pela Brasil Telecom. Leia a seguir trechos da entrevista concedida à Folha ontem.
Folha - A sra. foi a autora da sentença contra o Opportunity?
Márcia Cunha - Essa pergunta chega a ser ofensiva. Por sorte, tenho testemunhas que me viram escrevendo. É uma tentativa de desmoralização.
Folha - O texto é muito diferente dos padrões das suas decisões anteriores. Por quê?
Márcia - É um processo complexo, com 18 volumes.
Folha - A decisão saiu em poucos dias. A sra. leu tudo?
Márcia - Claro, eu tinha lido o processo há mais tempo porque dei outras decisões, inclusive favoráveis ao Opportunity.
Folha - A sra. disse que houve uma tentativa de corrupção por intermédio do seu marido. Por que não colocou isso por escrito na sua defesa?
Márcia - Como a senhora sabe disso? Não posso dizer, é algo de maturação sigilosa.
Folha - Mas a sua defesa é pública. E por que denunciar só agora, pela imprensa?
Márcia - Existem coisas que s