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    <title>Luis Nassif - Crônicas</title>
    <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog/3</link>
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    <dc:language>pt-br</dc:language>
    <pubDate>Sat, 03 Jan 2009 09:57:48 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>O Vogue, o fim de uma era</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=10109</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Crônica que integra o livro &amp;quot;A Casa da Minha Infância&amp;quot;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;04/12/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na fase pré-Ipanema, nos gloriosos anos 50, nenhum local marcou mais o Rio de Janeiro do que a boate Vogue. Sua história é importante por ter sido um marco nas relações sociais, políticas e empresariais do período.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Foi fundada por Max Stukart, o Barão, nobre austríaco cujo pai foi chefe de polícia da Áustria Imperial. Depois, Max foi da Força Aérea austríaca. Com a Segunda Guerra, passou por Paris, onde criou a boate Tour Paris, considerada a mais refinada da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a Guerra comendo solta, deixou Paris e veio parar no Rio, para ser diretor artístico do Copacabana Palace, trazido pelos Guinle.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nos anos 30, quando o jogo foi reaberto, julgava-se que o Copacabana ficaria sozinho. Aí entrou um empreiteiro mineiro atrevido, Joaquim Rolla, que alugou o Cassino da Urca, no fim do mundo, e entrou na loucura total do showbusiness. Em breve, o Cassino da Urca dominaria a noite, seguido do Cassino Atlântico, aberto pelos Bianchi, enquanto o Copacabana continuava a receber apenas a sociedade carioca mais reservada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A febre dos cassinos plantou um deles até em Icaraí, Niterói, que tinha o apelido de Necrotério. Como era mais barato, só recebia clientes que estavam pela hora da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A guerra expulsava para a cidade europeus e americanos endinheirados, querendo viver intensamente, apesar da posição estupidamente xenófoba da Comissão de Estrangeiros que impediu muitos artistas, cientistas ou simples pessoas que fugiam da morte nos campos de concentração de entrar no país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos vetados, por suspeita de ser comunista, foi um certo pintor basco, de nome Pablo Picasso, segundo relato que me foi feito por Aloysio Salles, homem de vastos contatos com o mundo político e social da época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Proibido o jogo, em 1946, o Barão resolveu fundar o Vogue, associado a Dom Duarte Atalaia, nobre português, dono do prédio. Era o início de uma era.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em pouco tempo, revolucionou a vida noturna carioca. Para abrilhantá-la, foi buscar na Europa duas figuras que se tornaram lendárias no Rio. A primeira, o pianista Sacha Rubin, um turco metido a francês que tocava piano com um copo de uísque do lado e um cigarro invariavelmente estacionado no canto da boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda, o chefe de cozinha Gregoire Belinzanski, um russo branco que introduziu três pratos clássicos na cozinha brasileira: o estrogonofe, o frango à Kiev e o picadinho à brasileira.&lt;br /&gt;Para competir com o Vogue, Carlos Machado, arrendatário do Casablanca, resolveu fundar uma nova boate e deu sociedade a Sacha. Na rua Padre Antonio Vieira, foi criado o Sacha's.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o Vogue permaneceu absoluto, tendo como maior estrela o negro norte-americano Louis Colle. Era uma casa eclética, em que se apresentavam Silvio Caldas, Ângela Maria, Josephine Premisse, Leny Eversong, Edu da Gaita. No final da noite chegavam Vinicius de Moraes, seu tio, o delegado Melo Morais, Antonio Maria, Elisete Cardoso. Havia os bebuns típicos, como Valter Quadros, editor de &amp;quot;O Sombra&amp;quot;. E playboys internacionais, como Ali Khan. Havia os maîtres Costa e Milton.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Vogue não era mero local de recreação, mas ponto obrigatório de troca de informações, em que se confabulavam sobre operações cambiais, financeiras, advocacia administrativa e prevaricação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia 14 de agosto de 1956, acabou-se a era Vogue. Um incêndio consumiu o prédio. Nele, morreram o jornalista Raul Martins e Warren Hayes, um jovem cantor norte-americano, ainda estudante em Nova York e que fora contratado pelo Barão para uma rápida temporada no Vogue. Namorava a atriz Diana Morel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou no nono andar do prédio pedindo socorro. Atirou-se ao solo, assim como Raul. Quando o incêndio foi extinto, encontraram em um quarto, mortos abraçados, o casal Valdemar e Glorinha Schiller, recém-casados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco tempo depois, Brasília começaria a ser construída, e o mundo oficial foi se mudando para lá, esvaziando gradativamente o Rio de Janeiro. A cidade ainda brilharia nos anos 60, nos ventos da bossa nova e de Ipanema. Mas o Rio influente, internacional, espalhou-se e se perdeu pelo país com as cinzas do Vogue.&lt;/p&gt;&lt;p style="font-weight: bold;"&gt;Por Fábio Koifman&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Caro Luís Nassif:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Gostei muito do seu texto abaixo. Há anos estudo especificamente a entrada e o controle da entrada de estrangeiros no Brasil entre 1937 e 1945, durante o Estado Novo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É a primeira vez que vejo num texto do gênero referência a Comissão de Estrangeiros. Em verdade, chamava-se Comissão de Permanência de Estrangeiros (CPE) e funcionava no Ministério da Justiça (então MJNI). Foi criada por decreto em 1938 e seguiu trabalhando até 1940 ou 41. Mas não era essa comissão que barrava ou barrou os estrangeiros artistas durante essa época. A CPE foi criada tão somente para regularizar a situação dos estrangeiros que aqui já estavam. A idéia era fichar todo mundo, regularizando os irregulares e &amp;quot;zerar&amp;quot; tudo. No mesmo ano de 1938 uma detalhada lei (decreto 3.010) trataria de estabelecer o controle &amp;quot;correto&amp;quot; de modo a dar fim a entrada de estrangeiros não desejados.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O órgão que de fato estudava pedido por pedido de estrangeiros, aprovava ou não a entrada e cujo acervo guarda inúmeros casos envolvendo artistas é outro. É o Serviço de Visto do MJNI, que iniciou os trabalhos em abril de 1941. Mas sua fonte é bastante &amp;quot;quente&amp;quot; e quase precisa. Explico a confusão na memória dele. Aliás, aproveito para perguntar: Aloysio Salles ainda vive? Existiram homonimos. Um deles, um médico. Bem, voltando a explicação da confusão. A CPE era composta de 3 homens. Um era secretário do Ministro da Justiça e era quem efetivamente mandava. O Serviço de Visto do MJNI era dirigido justamente pelo mesmo personagem. Ele é que decidia. O Ministro 99% das vezes seguia o parecer dele. E não é só isso. Os fichários, informações, secretários etc da CPE foram incorporados pelo Serviço de Visto, que existiu até 1945. E tem mais, nos processos do Serviço de Visto em muitas oportunidades eram utilizadas pastas com timbre da CPE riscado, re-datilografado em cima Serviço de Visto.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A turma tinha um procedimento rigido em relação a qualquer estrangeiro. Os artistas precisavam apresentar contrato assinado (encontrei centenas desses contratos) com um agente residente no Brasil (normalmente os cassinos que você menciona) além do OK do DIP. Entre outras tantas exigências.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eu li todo acervo que restou da CPE (milhares de prontuários) e do Serviço de Visto (idem). Não encontrei nenhum pedido relativo ao Picasso. O pintor residia na França. Você por acaso sabe se foi de lá que solicitou a concessão? Li também toda a correspondência remetida nesses anos entre todas as nossas representações na França e o Itamaraty (eles é que recebiam e dirigiam ao MJNI as solicitações entre 1941 e 1945). Só se essa solicitação partiu de algum outro país. Partiu?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De qualque maneira, fiquei curioso em relação ao Max Stukart, nome que não me recordo de ter lido antes. Vou pesquisar o que temos dele nos Arquivos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com um abraço, Fábio Koifman.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Tue, 02 Dec 2008 07:23:00 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>Meu Thesouro da Juventude</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=9956</link>
      <description>&lt;p&gt;Aprendi a ler no Thesouro da Juventude, assim mesmo com &amp;quot;th&amp;quot;, da W. M. Jackson Editores, edição de 1925, com prefácio de Clóvis Bevilacqua. Era de meu avô Issa. Contava os minutos para chegar à farmácia do meu pai, subir as escadas externas que davam no andar de cima, onde morava vovô. Corria para a estante, tirava um volume, abria no chão forrado por um cobertor, e ficava de bruços devorando as páginas e as ilustrações a bico de pena.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em 1957, quando entrei no primeiro ano da Escola Sete de Setembro, da dona Nicolina, escrevia um português escorreito... dos anos 20. Cavallo com dois eles, e assim por diante. Para que eu chegasse à reforma ortográfica, minha mãe comprou a edição de 1958 do Tesouro da Juventude. Mas não tinha a menor graça. Preferi migrar para a coleção de Monteiro Lobato, e sua estilização lingüística tão lógica, sem acentos desnecessários.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas o Thesouro me acompanhou a vida toda, e de toda a minha geração e de meus pais. Não chegou a meus filhos. Passou-nos informações da forma mais agradável possível, noção de astronomia, de geologia, de história, de literatura. Na &amp;quot;Introducção&amp;quot;. Clóvis Bevilacqua indicava a obra para &amp;quot;meninos, adolescentes e homens do povo que teem sede de saber&amp;quot;. Os editores definiam-no como uma enciclopédia popular, &amp;quot;um livro acerca de tudo para todos e especialmente para os jovens&amp;quot;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eram 18 volumes, todos contendo uma seqüência de temas. A primeira gravura do primeiro tomo era uma pintura do sistema solar, com astros de todos os tamanhos e trens se lançando ao espaço para alcançá-los. Um trem expresso, correndo a 1.600 km por minuto poderia dar a volta ao mundo em menos de vinte dias, dizia o texto. Mas levariam 177 anos para chegar ao sol.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De cara, éramos apresentados à nossa insignificância, passeando por todas as lições de &amp;quot;O Livro da Terra&amp;quot;. Em seguida, se entrava em &amp;quot;O Livro da Natureza&amp;quot;, que tratava especificamente da vida nos animais e das plantas. Uma página colorida, finamente ilustrada, mostrava &amp;quot;os seres mais interessantes da terra&amp;quot;, dos conhecidos, águia, gaivota, gavião, leopardo, aos menos votados sariguéa, python, maçarico e buccinum.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Depois, pelo &amp;quot;O Livro de Nossa Vida&amp;quot;, destinado a desvendar a maravilha da humanidade. Havia &amp;quot;O Livro do Novo Mundo&amp;quot;, que tratava desde os homens primitivos, até à construção da América, e &amp;quot;O Livro do Velho Mundo&amp;quot;, falando das antigas civilizações, com amplo relato sobre a China, sobre o seu isolamento que tirou-lhe a noção de progresso, e de como, pouco a pouco, voltava a se abrir para o mundo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em um período de grandes inovações, as invenções eram tratadas no capítulo &amp;quot;Cousas que Devemos Saber&amp;quot; e as curiosidades em &amp;quot;O Livro dos Porquês&amp;quot;, talvez o tema mais popular da enciclopédia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Meu tema predileto eram os &amp;quot;Homens e Mulheres Célebres, Nobres Vidas, Nobres Feitos&amp;quot;. Marco Pólo inaugurava o primeiro tomo da coleção. Depois, abordava-se a criação da famosa Escola de Sagres em Portugal, e os navegadores portugueses.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Menos épico, mais infantil, era &amp;quot;O Livro dos Contos&amp;quot;, estreando com &amp;quot;Sindbad o Marinheiro&amp;quot;, e um bico de pena magnífico mostrando &amp;quot;A Ave Gigantesca e o Homem do Mar&amp;quot;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma parte que não me interessava muito, dada minha invencível falta de habilidade para trabalhos manuais era o &amp;quot;Cousas que Podemos Fazer&amp;quot;, que ensinava desde a fazer uma caixa de madeira até a cortar o cordel mágico. Ensinava um modelo simples de desenhar um cão, e diversos desenhos possíveis de se fazer com palitos de fósforo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E aí se entrava em outro dos meus temas prediletos, &amp;quot;O Livro das Bellas Acções, Heroes e Heroínas do Mundo&amp;quot;. A primeira história era &amp;quot;Irmãs pelo Sangue e pelo Heroísmo&amp;quot;, narrando um capítulo familiar da resistência portuguesa contra a invasão espanhola no século 17. Depois, &amp;quot;O Sacrifício do Padre Damien&amp;quot;, um belga que partiu para as Ilhas dos Mares do Sul para cuidar de leprosos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Voltava-se para a literatura, com &amp;quot;O Livro da Poesia, o Bello Mundo dos Poetas&amp;quot;, com &amp;quot;O Gigante Adamastor&amp;quot;, trecho dos Lusíadas. Depois, a &amp;quot;Canção do Exílio&amp;quot;, de Gonçalves Dias, uma das paixões da minha infância. E &amp;quot;Manhã em Petrópolis&amp;quot;, de um certo José Maria Amaral, que &amp;quot;se não é dos maiores poetas brasileiros, ocupa um lugar muito honroso na nossa história literária&amp;quot;. Acho que houve alguma proteção em sua inclusão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A maior honraria que recebi até hoje foi ter sido o herdeiro da coleção, quando vô Issa morreu. Minhas queridas tias, todas ciumentas do patriarca, não vacilaram um momento na hora de me entregar seu bem mais precioso, a Coleção que comprou em 1928, para aquecer o espírito de dona Teresa, que tinha completado dois anos de vida.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 22 Nov 2008 19:48:00 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>A princesinha do pimbolim</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=9845</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Crônica de 12/11/2008&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Finalmente, a Dodó convenceu a mãe a comprar uma mesa de pimbolim, pebolim, ou totó, dependendo da região.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E, aí, me lembrei dos meus tempos de adolescência varando os sábados no Bilhar do Gibimba,  na esquina da rua São Paulo com a praça Pedro Sanches. Eram horas e horas jogando, aprendendo, inventando jogadas e bebendo cerveja. As apostas eram modestas: quem perdia pagava as fichas, às vezes pagava as cervejas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Peguei a fase dos jogadores de plástico. Mas ainda havia os mesões com jogadores de ferro, onde sobressaíam alguns campeões inesquecíveis, como o Junqueira, que, da defesa, era capaz de colar a bola no pé do jogador como um Rivelino, vislumbrando os espaços abertos pelas  quatro filas de jogadores adversários para chutes certeiros, diretos ou oblíquos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Levei alguns meses praticando intensamente, até dominar o ofício. Diria que, com exceção do Junqueira &amp;ndash; que proporcionava um jogo duríssimo &amp;ndash; não havia quem fizesse frente à nossa dupla, eu e o Tião Cabo Verde.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Depois, mudei-me para São Paulo e enveredei pelo campo das apostas. Nos primeiros anos, os jogos nos bilhares da rua Aurora, da avenida São João, no Belenzinho, Vila Maria e até na Boca do Cais de Santos garantiram a complementação da mesada e, depois, do salário.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Diria que nosso estilo de apostas era positivamente temerário. O meu amigo Zé Grandão e eu entrávamos no ambiente desconhecido e simulávamos um jogo. O Zé tinha um metro e noventa de puro osso, era cego de um olho e tinha 12 graus no outro. O fato de ter um olho só lhe conferiu uma poderosa mira na sinuca, mas atrapalhava no pimbolim.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Jogávamos umas três partidas, ele ganhando todas, eu dando viradão e outras baixarias. Até que, simulando profunda irritação, tocava-o da mesa e perguntava se alguém gostaria de jogar. No início, sempre aparecia um pato. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Minha carreira começou a entrar em decadência um dia em que, em lugar de pato, topei com um ganso do Capitólio.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um amigo querido era o Pedrinho, dono de uma banca de revistas na rua Maria Antonia, da Seleção Paulista de Veteranos do Tênis de Mesa e um emérito gozador. Me disse que no Largo do Belém tinha um bilhar e o campeão era o Touro, meio aparentado dele e grande contador de prosa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fomos para lá conferir o papudo &amp;ndash; que, de fato, pelo tamanho fazia jus ao apelido. &lt;br /&gt;A formação clássica do pimbolim é goleiro &amp;ndash; dois zagueiros &amp;ndash; cinco meio-campos &amp;ndash; três atacantes. Começa o jogo, pego a bola na frente e faço minha firula predileta.  Consistia no ponta-direita jogar a bola para o centro-avante que, em vez de chutar ou parar a bola, levantava o pé deixando a bola passar para o ponta-esquerda. Antes que o adversário se desse conta de quem estava com a bola, o ponta esquerda puxava a bola de novo para o centro-avante atirar para o gol aberto. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fiz a firula, marquei o gol, a galera levantou e aí, o Touro rugiu. Foi até a parede, deu dois murros, caiu um ladrilho. Silêncio absoluto no salão. Procurei o Pedrinho com olhos súplices, mas o traidor tinha se mandado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fui como um boi para o matadouro. Sabia que não podia ganhar, mas sabia que não podia entregar o jogo. Foi uma dureza. O jogo chegou a estar 3 a 3. Mais um gol, terminava. E o danado do Touro não conseguia acertar o gol, apesar de todas as molezas que lhe dava. Depois de uma eternidade, ele marcou. 4 x 3. Berrou feito um touro, olhou com fúria para a torcida, depois dirigiu aquele olhar feroz para mim e me convidou para ir ao bar com ele.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fui, o que fazer. Lá, ele me pagou um uísque fizz.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Olha aqui, não pense que não sei que você me deixou ganhar. Mas queria te agradecer por não ter me deixado passar vergonha perto daqueles fdp.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Diria que foi o início do fim da carreira de um promissor jogador de pimbolim.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Estava imerso nessas lembranças, quando vi a mesa em casa. Na hora as menininhas me desafiaram para um jogo. E a caçula Dodó, de 8 anos, se revelou uma adversária temível. No dia anterior, ela havia desafiado nosso motorista e ganhado de cinco partidas a zero. E ele não é lerdo. A mão esquerda dela é fulminante. Duas vezes a bola bateu no fundo do gol e voltou. Diria que, nos meus tempos de Poços, ela encararia a maior parte dos jogadores do Gibimba.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A superioridade dela sobre o Edir foi tão grande que marcou diversos gols de goleiro e ainda esnobou:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Na escola gol de goleiro vale dois. Mas vou deixar por um aqui.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E, aqui, faço uma pausa para o exercício corriqueiro: o de ser pai ridículo. Em toda minha vida, nunca vi ninguém nascer  mulherzinha como a Dodó. Com menos de dois anos aprendeu a revirar os olhinhos, quando tratava de pedir alguma coisa. Sabe ser insistente, envolvente. Quando fui ouvir a avaliação sobre ela, na escola, as duas professoras comentaram:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando ela vem até nossa mesa e revira os olhinhos, consegue tudo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No pimbolim ela fica com as bochechas vermelhinhas, realçando os olhos grandes de libanesinha, cobertos por cílios que parecem cortinas de veludo. Depois que marca algum gol ela tem por hábito ajeitar os cabelinhos, tirá-lo da testa e se preparar para o próximo gol.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Depois de liquidar com o Edir, Dodó enfrentou a irmã Bibi. Meia hora de jogo a Bibi sai indignada da sala, pisando duro e com olhar assassino. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;- O que aconteceu?, perguntei. Está perdendo e apelando?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A Bibi é minha xerox e, como eu na infância, não admite perder.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Não é nada disso, papai. Não é com o que acontece no jogo. Mas o que acontece DEPOIS do jogo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- E o que acontece depois do jogo?&lt;br /&gt;- A Dodó ganha da gente, estica a mão e fala: o próximo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Do lado, ouvindo as reclamações da Bibi, Dodó promete:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Juro que falo &amp;ldquo;o próximo&amp;rdquo; só na Escola. Pode voltar Bibi.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E lá foi a pobre Bibi para mais uma surra homérica.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Para incluir no mailing da Crônica, &lt;a href="mailto:cronicaincluir@dvnet.com.br?subject=Incluir"&gt;clique aqui&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 15 Nov 2008 09:40:00 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>Salve o compositor popular</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=8541</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Crônica de 31 de outubvro de 1994&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ouvir a coleção ``Elis Regina no Fino da Bossa`` não significa apenas relembrar a maior fase da maior das cantoras, conferir sua afinação irrepreensível, a capacidade de improviso e de blague, a espontaneidade esfuziante que o tempo tornaria amarga e rigorosa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;É também oportunidade de conferir a extraordinária importância que acabou assumindo para o país aquela rapaziada que começava a vida sob o comando de Elis.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vivia-se a fase do protesto. A ditadura criara uma aura romântica em cima do governo anárquico deposto. A busca da liberdade e da justiça social incendiava os corações dos jovens poetas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De lá para cá, muita água rolou. Seguiu-se o período do ``milagre``, com o sucesso econômico vinha acompanhado de um arrocho cada vez mais imoral dos direitos políticos. Os jovens poetas não recuavam.&lt;br /&gt;Geraldo Vandré tornava-se o símbolo da resistência ao arbítrio com ``Caminhando``. Caetano Velloso e Gilberto Gil iam além com ``É proibido proibir``, enfrentando não só a censura dos donos do poder, como o patrulhamento dos donos da oposição. Outros, como Sidnei Miller, retratavam a desesperança com acordes soturnos, mas que sempre deixavam espaço para a volta da liberdade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O fim da década mostraria o renascimento das lutas políticas. À frente, os grandes avalistas sempre eram músicos, pessoas como Chico Buarque, com seu ``Vai Passar``, João Bosco e Aldir Blanc, com ``O Bêbado e a Equilibrista``.&lt;br /&gt;Completado o processo de redemocratização, revelou-se a face espúria de grupos organizados que tomaram conta do Estado. O peleguismo, o corporativismo e o fisiologismo passaram a grassar pesadamente. E nossos poetas recolheram armas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A Universidade oferecia quadros para avalizar as práticas políticas mais espúrias. O meio teatral borboleteava de poderoso em poderoso. Os cineastas perdiam-se em futricas e jogos miúdos de poder. Alguns cantores procuravam se aproveitar do momento para ocuparem espaço nos palanques dos políticos, visando as paradas de sucesso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas eles, o primeiro time da música popular, mantinham-se permanentemente criativos e íntegros, ajudando com sua música extraordinária a consolidar o sentimento de Nação, num momento em que a vergonha de ser brasileiro dominava todos os quadrantes do país.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No auge da exposição da corrupção do governo Collor, um show da família Caymmi, no Anhembi, levava centenas de pessoas às lágrimas. Não era apenas a beleza da música. Era o contato com a parte mais íntegra de uma cultura, um dos poucos territórios que não havia sido maculado pela politização espúria, pelo oportunismo barato, pelo imediatismo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nos anos seguintes, assim como na ditadura, nas decepções dos primeiros tempos de democratização, foram os shows desses poetas que ajudaram a sinalizar os novos tempos, da recuperação da auto-estima e do projeto de Nação.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Shows de Chico Buarque, Paulinho da Viola, Gil e a Velha Guarda da Portela, Tom Jobim, não encerravam mais o fogo contestador dos jovens adolescentes do Fino da Bossa. Permitiam apenas, ao levar auditórios às lágrimas, a constatação de que há um grande país em construção, uma nação que caminha para ser íntegra, solidária e criativa. Como seus poetas populares.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 16 Aug 2008 12:13:00 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>Dia dos Pais, da Bibi</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=8475</link>
      <description>&lt;p&gt;Sobre um texto de um autor (do qual não me lembro o nome) explicando o que é ser adolescente (clique no Full Screen para enxergar melhor)&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;div id="__ss_550432" style="width: 425px; text-align: left;"&gt;&lt;a title="Carta Dia Dos Pais" href="http://www.slideshare.net/guestdcce51/carta-dia-dos-pais?src=embed" style="margin: 12px 0pt 3px; font-family: Helvetica,Arial,Sans-serif; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 14px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; -x-system-font: none; display: block; text-decoration: underline;"&gt;Carta Dia Dos Pais&lt;/a&gt;&lt;object width="425" height="355" style="margin: 0px;"&gt;&lt;param value="http://static.slideshare.net/swf/ssplayer2.swf?doc=carta-dia-dos-pais-1218471383908346-9&amp;amp;stripped_title=carta-dia-dos-pais" name="movie" /&gt;&lt;param value="true" name="allowFullScreen" /&gt;&lt;param value="always" name="allowScriptAccess" /&gt;&lt;embed width="425" height="355" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always" type="application/x-shockwave-flash" src="http://static.slideshare.net/swf/ssplayer2.swf?doc=carta-dia-dos-pais-1218471383908346-9&amp;amp;stripped_title=carta-dia-dos-pais"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div style="font-size: 11px; font-family: tahoma,arial; height: 26px; padding-top: 2px;"&gt;View SlideShare &lt;a title="View Carta Dia Dos Pais on SlideShare" href="http://www.slideshare.net/guestdcce51/carta-dia-dos-pais?src=embed" style="text-decoration: underline;"&gt;presentation&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 11 Aug 2008 13:09:00 GMT-03:00</pubDate>
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    <item>
      <title>Dia dos Pais, da Maricota</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=8474</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Da Maricota&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;img width="350" height="263" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_4M326Um0h64/SKBb7uyHIOI/AAAAAAAAADA/dj6usjxztLY/s400/DSC00899.JPG" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com quase 30 a gente precisa reativar a memória pra determinadas coisas... mas lembranças de um pai como o meu não somem. Especialmente aquelas que ficam pra sempre, desde a infância até o começo das batalhas na vida adulta. Até porque o papel do pai muda tanto, e eu mudo tanto, que seria um atentado querer que tudo continuasse igual.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Lá em Bragança tem uma sorveteria deliciosa chamada Santa Rita. E a gente tinha uma Belina azul-calcinha, brilhante, onde meu pai colocava todos os sobrinhos, eu e minha irmã Luiza e seguia pra sorveteria todo domingo - final de semana na chácara dos avós maternos era lei. Na sorveteria, cada um escolhia o que queria, aquele exagero de sabores e coberturas, e então meu pai inventou o &amp;quot;troféu porquinho&amp;quot;, obviamente pra quem se lambuzava mais. A Nina, prima querida, era considerada café-com-leite, pois se participasse sairia vencedora todas as vezes. Era uma delícia sentar na mesinha da Santa Rita, escutar as risadinhas do meu pai, de quem caçoa das pequenas coisas da vida. Era uma delícia enfrentar a fila da família pra lavar rosto, mãos, braços e vez por outra até os pés na pia baixinha da sorveteria, pra só depois voltar pro carro, que invariavelmente fervia de tão quente que é aquela terra.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Já em Poços, a lembrança que mais marca minha vida com este meu pai é a de passar milhares e milhares de vezes pela subidona da Igreja do São Benedito e ver aquela mão que passa toda a segurança do mundo apontar pro lugar onde depois de muitas horas e orações ele nascera. E continuar dizendo que na casa ao lado morava tal tia, tal avô, e todas as traquinagens que eles aprontavam em Poços. Inesquecível também são os carnavais mineiros, eu toda pequena e espevitada sentada ouvindo marchinha com a Goga, mulherão de boca grande e desbocada e achando o máximo ser uma criança que frequentava as altas rodas do grande carnaval Caldense. Vem daí minha aversão aos ritmos praticados hoje, e a imensa predileção por estar perto dos meus, dos nossos e com o que a gente gosta ao invés de atrás do trio elétrico... e ninguém por aqui morreu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Meu pai toca violão que é uma beleza, e compõe músicas incríveis, e as canta quase com lágrimas nos olhos. E ele não cansa de falar como foi especial a primeira vez que nos olhamos, e isso me dá uma segurança e amor tão grandes de escutar que gostaria de gravar a voz dele repetindo pra quando eu ficar com medo - e eu fico muito, quase sempre. Meu pai deve ter orgulho de mim, que sou cheia de rolo, de tatuagens, de indefinições e características enroladas, bem ao contrário do que os pais esperam da filha mais velha - mas percebo nos olhinhos por traz dos óculos um brilho bonitinho quando estou chegando e ele fala: e aí, Maricotinha? - como se meu tamanho todo não significasse absolutamente nada, só importa o fato de ser filha.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ele ensinou a amar as irmãs de um jeito especial, que é como a gente devia amar todo mundo que convive intimamente. Mostrou como é que dá pra impor respeito sem gritar, apesar de eu não estar muito bem nesta lição. Deu colo por mais de dez dias seguidos quando as lágrimas ficaram fortes demais, meu turbilhão no meio do turbilhão da vida dele. Se ele erra? Ah, é humano, apesar de pai, né?!?! E ele acolhe o que eu fiz de melhor, que é a Clara-primeira-neta que só de onda nasceu no dia do aniversário dele, pra mostrar que nenhum presente é melhor que o nosso presente.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E o tempo vai passando, e eu reclamo direto pra ele, com ele e brigo, agradeço e choro, cobro um tanto de coisas e recebo tantas outras que não dá pra mensurar. Mas sabe... em todos os momentos da minha vida, naqueles pequenininhos que fazem toda a diferença, ele estava lá. Nos grandes também, mesmo que eu ache que seja difícil pra todos os pais encarar dificuldade e passos de filha gente grande. Sei que sempre vai estar. Por telefone, MSN, ao vivo de surpresa em casa ou nos jantares de olhares cúmplices, quase sem palavras, meu pai é meu pai, e por isso o melhor de todo o mundo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Te amo, gordinho!!!!!!!!!!!!!!&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 11 Aug 2008 12:43:00 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>Ao mestre com carinho</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=8247</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Publicado em 14/08/1998&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nos anos 30 e 40, os salões do cassino &amp;ldquo;O Ponto&amp;rdquo; e o Grill do Pálace Hotel de Poços de Caldas não tiveram trinca mais animada que os três amigos pés-de-valsa: Chafik Frahya, Oscar Nassif e o jovem Antônio Cândido de Mello e Souza &amp;ndash;cujo 80&amp;ordm; aniversário, completado este mês, deflagrou série de seminários, reconhecendo-o como o mais importante intelectual brasileiro das últimas décadas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os dois primeiros, pequenos comerciantes, filhos de imigrantes libaneses. O terceiro, intelectual, filho de família tradicional, neto do homem que obteve a concessão das águas termais de Poços no final do século passado, e filho de Aristides de Mello e Souza, médico que montou as Thermas Antônio Carlos, inaugurada em 1930 --obra tão imponente que tinha por objetivo pavimentar a candidatura à presidência da República do presidente de Minas Gerais, Antônio Carlos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os dois primeiros não ambicionavam mais que a província. Antônio Cândido ambicionava o Brasil. Juntos, ambicionavam as mocinhas de Poços e região. Embora discretos, tudo indica que foram bem sucedidos.&lt;br /&gt;Em Poços, Antônio Cândido teve como primeiro grande mestre Edmundo Cardillo, professor primoroso de português, flautista de belo sopro, especialista em ciências ocultas e polemista temível. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando os irmãos Maristas assumiram a direção do antigo Colégio Municipal Mackenzie, sua vida mudou. O pai tinha morrido pouco antes, deixando a mãe em situação difícil. Os Maristas não aceitavam aluno que tivesse passado antes pelo colégio protestante, porque os consideravam definitivamente perdidos para a salvação eterna.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Antônio Cândido precisou completar os estudos em São João da Boa Vista, onde conviveu com seu segundo grande mestre do período, o professor Oliveira Netto, dono de uma das maiores bibliotecas da região.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Formado, seguiu para São Paulo onde, em pouco tempo, conquistou a intelectualidade paulistana com seus modos fidalgos, raciocínio profundo, honestidade intelectual, e um estilo de escrever claro, sem pedantismo.&lt;br /&gt;Mas a relação com Poços e os amigos prosseguiu incólume. Enquanto permaneceram jovens, continuaram soberanos nos bailes do Pálace. Casados, numa rotina que se estendeu por décadas, Antônio Cândido ia a Poços, no final do dia pegava religiosamente Chafik no escritório da Serraria Americana. Depois iam juntos encontrar o amigo Oscar na Farmácia Central, Salva Sempre, onde rememoravam histórias da juventude.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Fim da rotina&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ano após ano, testemunhei aquela rotina, que terminou quando Oscar mudou-se  para São Paulo, em 1974, e, poucos meses depois, foi abatido por um derrame que roubou-lhe os movimentos do lado direito do corpo, e comprometeu a fala.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O amigo Antônio Cândido sumiu. Eu não conseguia entender o que ocorrera, principalmente porque, nas noitadas musicais do bar do Alemão, seu então genro, o compositor Carlinhos Vergueiro, vinha me falar da paixão reiterada do sogro pelo amigo boticário de Poços. Mas o professor não aparecia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Encontraram-se pela derradeira vez em Poços, quando levei meu pai para o último encontro com Chafik. Lá, pude entender o que acontecia. A situação física do amigo visivelmente abalava o professor. Quase dez anos depois, o velho mestre compareceu à missa de Sétimo Dia de Oscar, em São Paulo, cumprimentou-nos emocionado e se retirou.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um ano depois da morte de meu pai, em meio a problemas enormes, deu-me súbita ansiedade de procurar seu amigo. Faz parte da psicologia dos que ficam tentar recuperar a memória dos que se foram, como compensação. Era início de 1989, com a economia de pernas para o ar, mas a imagem do professor não me saía da cabeça. Sonhava com ele, como se meu pai viesse me puxar as pernas à noite. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Acabei ligando para sua casa. Disseram que tinha ido para Poços de Caldas, negociar a venda da casa da família.&lt;br /&gt;Ida a Poços&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Só entenderia algum tempo depois porque, cargas d&amp;rsquo;água, deu-me vontade de convidar Antônio Fernando de Franceschi, funcionário do Unibanco com passado jornalístico, a me acompanhar na viagem. Franceschi estava igualmente enrolado, com compromissos já firmados para o final da semana e, a princípio, recusou. À noite me ligou, dizendo que ia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Saímos sábado de manhã de São Paulo e chegamos perto das 11 horas na casa da família do professor, em Poços. Era uma casa magnífica, antiga, conservada, com amplos jardins e enorme biblioteca que pertencera a seus pais.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Durante algum tempo, a conversa transcorreu tranqüila e agradabilíssima. Antônio Cândido discorreu sobre a simpatia das moças de Poços de seu tempo, e sobre a beleza das moças de São João. Lembrou histórias de Oscar e de Chafik. Como o apuro que Oscar passou ao manter um romance tórrido com uma turquinha bonita de São Paulo, que tinha o inconveniente de ser filha de um Secretário de Segurança tão bravo que já ameaçara prender o próprio governador do estado. Ou o modo de caminhar do Oscar, balançando o corpo &amp;ndash;característica que eu nunca havia reparado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ao final de uma hora e pouco de conversa, o professor desabou. A venda da casa representava seu último elo com Poços. &amp;ldquo;Poços para mim era seu pai, o Chafik e esta casa&amp;rdquo;, desabafou. Todos os irmãos já tinham filhos e netos, a família crescera muito, e a casa sempre foi mantida por uma caseira, que merecia ser premiada no final da vida com um imóvel próprio. A única maneira seria vender a casa. Um empresário da cidade já havia se comprometido a pagar US$ 75 mil por ela.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O reencontro com Poços&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Saímos de lá aturdidos pela angústia do mestre. Conversei com Franceschi sobre meios de revertermos aquela tragédia. Ocorreu-nos procurar ex-alunos, o empresário José Mindlin e outros mais, fazendo uma vaquinha que permitisse comprar a casa do comprador e montar uma Fundação Antônio Cândido, ou coisa parecida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fomos atrás do comprador, para uma conversa hilária. À medida em que falávamos da importância intelectual do professor, seu rosto ia iluminando e o cérebro tilintava como uma caixa registradora. Disse que já tinha se tomado de amores pela casa (que continuava com o professor) mas aceitaria vender por US$ 200 mil (sequer pagara os R$ 75 mil combinados). Dias antes, um empresário de Poços, com preocupações culturais, havia procurador o professor e oferecido US$ 150 mil pela casa, para montar uma fundação. O mestre recusou, por já estar apalavrado com o primeiro comprador. O jovem empresário estava aliviado e admirado: &amp;ldquo;Esse professor é igual ao seu pai, para cumprir a palavra&amp;rdquo;, me disse.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na viagem de volta a São Paulo, Franceschi me contou que era tesoureiro do Instituto Moreira Salles.  Naquele domingo mesmo procurou Fernando Moreira Salles e lhe falou da idéia pensada. A condição proposta por Fernando para adquirir o imóvel do comprador era de que Antônio Cândido aceitasse ser conselheiro da Fundação, e mantivesse lá a biblioteca. O mestre recusou. Conversei com Gilda, sua mulher, que disse que doera-lhe muito a decisão de vender a casa. Reabrir a discussão significaria reabrir a ferida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Reencontro&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tempos depois, fracassada a tentativa com a casa do professor, a idéia se desdobrou na compra pelo Instituto de um chalé na cidade, para a sede da Casa da Cultura. Aí, o professor aceitou ser seu conselheiro. Um novo cordão umbilical permitia manter Antônio Cândido unido, se não a Poços, pelo menos a sua lembrança.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Periodicamente, os conselheiros reúnem-se com o embaixador Walther Moreira Salles, e Jurandir Ferreira, também farmacêutico, escritor, historiador de Poços, primeiro patrão do ainda adolescente Oscar, e membro mais ilustre da confraria dos farmacêuticos escritores poçoscaldenses da época.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Creio que em algumas dessas reuniões, quando relembram a vida alegre de Poços dos anos 30 e 40, Chafik e Oscar devem aparecer nos papos dos amigos. Suspeito até que devem espreitar de longe, e, com seu estilo doce, Oscar deve estar satisfeito por ter preservado, pelos derradeiros outonos de Antônio Cândido, a trinca de amigos, e sua Poços que já não há.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 21 Jul 2008 12:14:00 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>Conversas com dona Tereza</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=7580</link>
      <description>&lt;p&gt;Mais um ano, menos um ano, a contagem regressiva se estreita. Quando a areia acabar de escorrer, estaremos juntos novamente.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Enquanto isto, eu aqui, no sofá, ouvindo &amp;ldquo;Feia&amp;rdquo;, do Jacob, olhando as menininhas dormindo seu sono de criança, pensando nas grandinhas e seu embate com o mundo real.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E pensando na senhora, a esta altura calma, sem aquela obsessão de estar por perto de todos, querendo proteger-nos dos fantasmas que a mente criava.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como foi duro aquele início de São Paulo, assistir seu desespero por ter perdido a casa em que nasceram todos os filhos, o derrame do papai, sua ansiedade para convencer os filhos a comprar uma casa grande, imensa, pouco importando se velha ou feia, mas grande o suficiente para abrigar a todos lá, casados ou solteiros, mas permitindo reconstituir o lar perdido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Como foi duro aquele almoço em casa, presentes nós todos, mais vô Issa e vó Martha. Tentei argumentar que continuaríamos unidos mas não mais morando juntos. Cada qual constituiria seu lar e manteria os mesmos vínculos, cada vez mais fortalecidos para enfrentar o terremoto de uma cidade de concreto e aço.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas você não se conformava. Sentindo seu desespero, a Regina foi em sua defesa, a Inês reagiu, vó Martha interpretou como desrespeito aquela nossa tentativa de trazê-la de volta o mundo real. E vô Issa, sempre ele com sua ponderação, com seu discernimento, mandando vó Martha parar, entendendo o drama que pairava sobre a família.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Durante algum tempo nos afastamos. Sua tentativa de impedir meu casamento deixou um certo travo de amargura na nossa relação.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não impediu que me mudasse para seu prédio assim que senti que sua saúde se esvaia e  não haveria mais intromissão na nossa vida. Mas não foi fácil. De um lado, você; do outro, a dona Elide, sogra querida e tão forte e intrometida quanto você.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas foram tempos bons. Durante pouco tempo me acalmei no Jornal da Tarde, nasceu a Maricota, criei uma rotina gostosa que começava de manhã, no JT, terminava à noite naquele gueto mineiro, onde morava a senhora, o papai e as irmãs solteiras; em outro andar a dona Elide; eu e a Ica; no conjunto ao lado o Zé Grandão e a Guida. Foi uma curta trégua até que partisse para outras batalhas, nessa resistência permanente contra toda forma de acomodamento.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Jamais nos esquecemos, eu e toda a família, as irmãs, as tias, de sua paixão pela Maricota, de como foi mágico o momento da aceitação da sua neta.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No início, tia Clélia foi sondá-la, para dizer que vinha uma criança para nós. Sua primeira reação foi de preconceito: filho tem que ser de sangue. De noite, sonhou com a sua vó Mariquinha que lhe passou um belo sermão, dizendo que pais são os que criam. No dia seguinte, você autorizou tia Clélia a ir atrás da nossa menina. A Maricota acabou vindo pela cunhada Lene.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A partir do primeiro contato, estabeleceu-se paixão imediata entre você e ela. Pequenininha, Maricota descia até seu andar e ficava horas conversando. Você se encantava com a ironia que ela demonstrava desde cedo, a resposta rápida, como você. Passou a acreditar em vidas passadas, em que teriam se estabelecido, entre ambas, laços eternos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dia a dia o hipercolesterol foi minando sua saúde. O Zé Renato deu-nos mais 14 anos de convivência com você, com a primeira operação de safena em 1976, a segunda em 1982, ambas conduzidas pelas mãos mágicas do doutor Sérgio Oliveira.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em benefício da verdade, sou obrigado a lhe contar um trote que aplicamos em 1982. Você chegou na Beneficência com um infarto agudo e um problema pulmonar. Foi direto para a UTI. Ficou uma semana por lá.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Saiu por uns dias, e o Zé Renato veio me consultar sobre a necessidade de um cateterismo. Havia três possibilidades, ele me disse. A senhora poderia não resistir; poderia resistir mas o cataterismo revelar que nada havia a fazer; ou poderia haver chance de mais uma cirurgia. Se não fizesse o cataterismo, a sobrevida seria mínima.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sua teimosia era terrível. Já tinha alertado que preferia morrer a se submeter a uma nova cirurgia. E não queria saber de cataterismo nenhum.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mesmo assim, aceitou uma consulta com o Dr. Bié, seu primo, ex-prefeito de Vargem Grande do Sul, que a salvou na infância tratando-a de um reumatismo infeccioso.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Aqui entre nós, e os leitores, o Dr. Bié morreu em 1970 e mandava recados através dos sonhos da tia Clélia.&lt;br /&gt;Quando o Zé Renato nos comunicou da necessidade do novo cataterismo, ficamos aguardando a tia Clélia chegar com o Dr. Bié a tiracolo. Antes de entrar na UTI fui até a tia Clélia e indaguei:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;-	E aí,tia, o que o Dr. Bié vai falar?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E a tia Clélia:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Que não deve fazer o cataterismo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;-	Tia, o dr. Bié vai ter que alterar sua recomendação,&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E expliquei o diagnóstico passado pelo Zé Renato. Tia Clélia entendeu rápido, deu uma risadinha marota e nos disse;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;-	Acho que o Dr. Bié não vai se incomodar se eu modificar um pouco seu diagnóstico.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E foi assim que a teimosa da dona Tereza se submeteu ao cataterismo, à segunda safena e nos proporcionou mais sete anos de convivência, mas aí com uma outra pessoa, mais sábia, menos ansiosa, mas permanentemente irônica.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sete anos depois, a senhora subiu ao meu apartamento. Eu já estava deitado. E lá me comunicou que tinha ido ao Dr. Sérgio para analisar a possibilidade de uma terceira cirurgia. Não foi possível. O colesterol já tinha tomado tudo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Lembro-se do seu desespero, de não querer morrer antes de assistir o casamento de Mariana. E me lembro, também, de como minha ficha só foi cair na véspera de sua morte. Nem eu, nem o Zé Renato &amp;ndash; que de medico se tornou seu filho &amp;ndash; aceitamos algo que era inexorável.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agora, ouvindo a &amp;ldquo;Feia&amp;rdquo; me dou conta de que lancei o CD depois da sua morte. Por quantos anos a senhora me cobrou o registrou das minhas composições, dos meus solos de bandolim.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas pode ter certeza de que cada faixa foi gravada pensando em você, como um tributo a dona Tereza.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 24 May 2008 00:01:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Ao divino assassino</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=7424</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;font face="Verdana"&gt;&lt;strong&gt;Bruno Tolentino&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font face="Verdana"&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font face="Verdana"&gt;Senhor, Senhor, o Teu anjo terrível&lt;br /&gt;é sempre assim? Não tens um refratário&lt;br /&gt;à hora do massacre - um mais sensível&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que atrasasse o relógio, o calendário?&lt;br /&gt;Ao que parece a todos tanto faz&lt;br /&gt;por quem o sino dói no campanário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aceito que a mais dura despedida&lt;br /&gt;é bem mais que metáfora do nada&lt;br /&gt;a que se inclina o chão; que uma ferida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e a papoula sangrenta da alvorada&lt;br /&gt;pertecem ao mundo sobrenatural&lt;br /&gt;tanto quanto uma lágrima enxugada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;à beira de um caixão. Mas afinal,&lt;br /&gt;Senhor, amas ou não a humanidade?&lt;br /&gt;Não fui ao escandaloso funeral&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e imaginá-la em Tua eternidade&lt;br /&gt;dói demais! Vou passar mais este teste,&lt;br /&gt;sim, mas protesto contra a insanidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com que arrancas a muque o que nos deste!&lt;br /&gt;Tu sabes que a soberba da família&lt;br /&gt;era maior que a dela e eu tinha a peste -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pai e mãe apartavam-me da filha&lt;br /&gt;e o irmãozinho nem falar... E hoje, coitados,&lt;br /&gt;como hão de estar? Aqui é a maravilha,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as genuflexões... Os potentados&lt;br /&gt;e os humildes, a nata da esperança,&lt;br /&gt;todos chegam por cá meio esfolados,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sangrando como a luz. Não só da França,&lt;br /&gt;toda a Europa rasteja até aqui&lt;br /&gt;esfolando os joelhos, não se cansa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de ensangüentar-se até chegar a Ti,&lt;br /&gt;e ao menos a um pixote do Além Tejo&lt;br /&gt;restituíste a vista; eu quando o vi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;solucei - mas que o cego e o paraplégico&lt;br /&gt;saiam aos pinotes, que o Teu coração&lt;br /&gt;se escancare e esparrame um privilégio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aqui e outro acolá na multidão,&lt;br /&gt;só me faz perguntar: E ela? E ela...?&lt;br /&gt;Não consigo entender que a um aleijão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;concedas tanto enquanto a uma camélia&lt;br /&gt;Tu deixas despencar... Por quê, Senhor?&lt;br /&gt;Olho tudo do vão de uma janela,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas vejo a porta de um elevador&lt;br /&gt;escancarar-se sobre um outro vão,&lt;br /&gt;um vão sem chão. E a seja lá quem for&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aqui absurdamente dás a mão!&lt;br /&gt;Me pões trêmulo, gago, estupefato,&lt;br /&gt;pasmo, Senhor - mas consolado não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesma mão que fez gato e sapato&lt;br /&gt;da minha doce Musa, cura e guia,&lt;br /&gt;cancela as entrelinhas do contrato,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dominus dixit... Mas quem merecia&lt;br /&gt;mais do que uma açucena matinal&lt;br /&gt;um manso desfolhar-se ao fim do dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quem mais do que uma flor, Senhor? Igual&lt;br /&gt;nunca se viu nem mesmo entre os crisântemos,&lt;br /&gt;tinha direito a um fim mais natural,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;à morte numa cama, em casa ao menos...&lt;br /&gt;Mas não - tinha que ser total o escândalo!&lt;br /&gt;Por que, se nem nos circos mais extremos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teus mártires andaram despencando&lt;br /&gt;sobre os leões, se nem o lixo cai&lt;br /&gt;de oito andares aos trancos, Santo Vândalo?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vim denunciar o Filho ao Pai&lt;br /&gt;ou o Pai ao Filho, não vim dar razão&lt;br /&gt;aos que recusam e usam cada ai&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;contra a humildade; vim porque a Paixão&lt;br /&gt;me chamou pelo nome e a alma obedece&lt;br /&gt;e aceita suar sangue - como não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não sei mais unir o rogo à prece&lt;br /&gt;do que a elegia ao hino de louvor,&lt;br /&gt;não sei amar-Te assim. Caso o soubesse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;teria que ficar aqui, Senhor,&lt;br /&gt;aqui, arrebentando-me os joelhos,&lt;br /&gt;esfolando-me todo ante um amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que vai tornando sempre mais vermelhos,&lt;br /&gt;mais duros os degraus do Teu altar.&lt;br /&gt;Tu, que tudo consertas, dos artelhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que desentortas e repões a andar&lt;br /&gt;até às pupilas mortas de um garoto,&lt;br /&gt;do cachoupinho que me fez chorar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu, que a este lhe dás a flor no broto&lt;br /&gt;e àquele o lírio pútrido do pus;&lt;br /&gt;Tu, que passas por um de quatro e a um outro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pegas no colo e entregas a Jesus;&lt;br /&gt;Tu que fazes jorrar da rocha fria;&lt;br /&gt;Tu que metaforizas Tua luz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ao ponto de fazer de uma agonia&lt;br /&gt;um puro horror ou a morna mansuetude -&lt;br /&gt;que hás de fazer, Senhor, comigo um dia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu agonizar, boiar no açude&lt;br /&gt;das lágrimas sem fundo... Quando a fonte&lt;br /&gt;cessar de soluçar e uma altitude&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;imerecida me enxugar a fronte...&lt;br /&gt;Como há de ser, Senhor? Oxalá queiras&lt;br /&gt;que a mim me embale a barca de Caronte,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como o fazia a velha Cantareira,,&lt;br /&gt;o azul da travessia... A Irrecorrível&lt;br /&gt;arrasta a cada um de uma maneira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e a quem quer que se abeire ao invisível&lt;br /&gt;recordas a promessa: aquele a escuta&lt;br /&gt;e este a reusa porque a dor é horrível,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas, se a todos a última permuta&lt;br /&gt;terá sempre o sabor da anulação,&lt;br /&gt;o travo lacrimoso da cicuta,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a ela Tu negaste o próprio chão,&lt;br /&gt;deixaste-a abrir a porta sem querer!&lt;br /&gt;Nunca falou na morte, e com razão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;intuía, quem sabe, o que ia ver...&lt;br /&gt;Sentença Tua? Em nome da promessa&lt;br /&gt;não há negar Teu duro amanhecer -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas quando arrancas mais uma cabeça&lt;br /&gt;como saber que és Tu, que não mentia&lt;br /&gt;O que ressucitou? Talvez na pressa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;no pânico de Pedro, eu negue um dia&lt;br /&gt;e trate de escapar, mas hoje não;&lt;br /&gt;hoje sofro com fé e, sem poesia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;metrifico uma dor sem solução,&lt;br /&gt;mas não vim negar nada! Faz efeito&lt;br /&gt;essa dor: faz sangrar, mas faz questão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de defender-me como um parapeito&lt;br /&gt;contra a queda e a revolta. Um Botticelli&lt;br /&gt;despedaçou-se todo, mas que jeito,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se por Lear enforcam uma Cordélia&lt;br /&gt;e encarceram a Ariel por Calibã...?&lt;br /&gt;Alvorece, a manhã beata velha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;enfia agulhas no Teu céu de lã,&lt;br /&gt;antenas às Tuas cenas de TV,&lt;br /&gt;e eu penso: ela morreu... Hoje, amanhã,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;enquanto Te aprouver e até que dê&lt;br /&gt;a palma ao prego e o último verso à traça,&lt;br /&gt;vai doer - mas Amém! Não há porque&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;amar a morte, mas que venha a Taça,&lt;br /&gt;aceito suar sangue até o final,&lt;br /&gt;como não... Tudo dói, menos a graça,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mata, Senhor, que a morte não faz mal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Paray-le-Maunial, 1979&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/em&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 12 May 2008 22:04:00 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>Feliz dias das mães</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=7406</link>
      <description>&lt;p&gt;Ontem foi dia de avaliação na escola das menininhas. Não abro mão de ir: toda vez é assim. A Ruiva deixa porque não há prazer maior do que ouvir das professoras o balanço da etapa cumprida, os avanços.&lt;br /&gt;Voltei pisando em flocos de nuvem. Às 8:30 foi a avaliação da Bibi. As professoras me falaram de sua paixão pela leitura, de como passa dicas de livro para alunos do 1&amp;ordm; ao 5&amp;ordm; ano, falaram mais coisas que me eximo de dizer para não parecer que ou um pai babão. Mas disseram que ela tinha valores e que &amp;ndash; importante &amp;ndash; não abria mão de defendê-los, em uma idade em que as meninas &amp;ldquo;populares&amp;rdquo; são as que enfrentam professores.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;À tarde foi a avaliação da Dodó, a caçulinha avoada e charmosíssima.  Cada classe tem duas professoras, uma que dá aulas em inglês, outra em português. Quando a de português terminou a avaliação, pediu para tirar a &amp;ldquo;máscara&amp;rdquo; de professora e falar como mãe. E agradeceu, comovida, o que as menininhas estavam fazendo por sua filha, recém-chegada ao colégio e alvo das hostilidades com que crianças recebem novas crianças no grupo, principalmente se são filhas de &amp;ldquo;autoridades&amp;rdquo; &amp;ndash; os professores. As menininhas se aproximaram da coleguinha, apoiaram-na. A professora pediu  autorização para convidá-las a ir à sua casa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dei, com a condição de sua filha vir na nossa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Voltei para casa pensando não apenas nas minhas menininhas, mas no papel da mãe. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Toda manhazinha, a Ruiva levanta e faz questão de pentear nossas menininhas. Alisa o cabelo, coloca lacinhos, pequenos enfeites, elásticos, cada dia um penteado diferente. No início, as coleguinhas reagiam com alguma ironia. Agora, quando vêm em casa, pedem um penteado para a Ruiva.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Toda noite, as menininhas pedem para ela colocar &amp;ldquo;anjinhos&amp;rdquo;, para que adormeçam mais rapidamente. A Ruiva coloca os anjinhos, abraça as menininhas até que durmam. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando mais nova, a Bibi tinha insônias freqüentes, de &amp;ldquo;ficar pensando&amp;rdquo;. A mãe passou a colocar anjinhos, o do &amp;ldquo;bom sono&amp;rdquo;, para situações normais, e o do &amp;ldquo;bom sonho&amp;rdquo;, para quando a insônia apertasse. Uma vez tentei o do &amp;ldquo;bom sono&amp;rdquo;, não deu certo; tasquei o do &amp;ldquo;bom sonho&amp;rdquo;. Antes de dormir, com a voz bêbada, Bibi admitiu: &amp;ldquo;Esse do bom sonho é forte, papai&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando saímos, em restaurantes ou shoppings, é um encanto observá-las. Pode haver dezenas de pessoas em volta, burburinho, conversas, gritos de crianças, latidos de cachorro. Para as menininhas, o foco do olhar é na mãe.  É como se nada mais existisse naquele momento, todos os personagens, cenas, objetos não passassem de imagens esmaecidas, circundando o brilho que emana da mãe.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi a mãe que lhes passou o gosto pela leitura, ensinou a escolher os autores. É a mãe que cheira no ar os pequenos probleminhas que atravessam e conversa, conversa, conversa, orienta, pergunta, busca saídas. Foi conversando que ajudou a Bibi a sair da concha, a superar sua ultra-sensibilidade e a se tornar uma menina afirmativa, sem ser &amp;ldquo;achona&amp;rdquo; &amp;ndash; como a própria Bibi faz questão de salientar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E aí me lembrei dez anos e pouco atrás, a Ruiva terminando o mestrado em Ribeirão, uma mocinha ainda, de 25 anos, chegando do exame de ultra-som &amp;ndash; que não pude assistir devido ao trabalho. Ela entrou no ICQ e despejou palavras de pura emoção, ela que poucos meses antes sequer imaginara a possibilidade de vir a ser mãe tão cedo. Falava, falava, mandando beijoooooosssss. Tinha se tornado uma mãe completa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ontem, no café, como fazem todos os pais, ficamos imaginando o futuro das menininhas. Às vezes me pesa essa obsessão de estar sempre pelejando, a falta de senso prático, esse vício em Brasil que muitas vezes me desvia dos projetos pessoais, o fato de ser um pai-avô, em uma profissão que não costuma dar longevidade aos seus.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas, olhando a Ruiva, analisando os valores plantados nas meninhas, a ligação com as meninonas, fico mais tranqüilo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Feliz dia das mães, Ruiva, com nossas menininhas tão queridas. Feliz dia das mães, Ika, com nossas meninonas tão queridas.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 11 May 2008 11:12:00 GMT-03:00</pubDate>
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    <item>
      <title>Os dez anos de Bibi</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=7332</link>
      <description>&lt;p&gt;Eram tempos de guerra, de temporais, tempos de desassossego. No início .de setembro uma amiga me disse que tinha sonhado com meu tio Léo &amp;ndash; que havia falecido anos atrás. Estranhei. Ela nem chegara a conviver com ele. Mas o recado era claro: no dia 20 viria uma notícia que mudaria minha vida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pensei em alguns projetos que apresentara ao seu Frias, ao próprio Roberto Civita, que me convidara para um almoço na Abril. A Internet estava começando e tinha algumas idéias que poderiam dar certo. Apresentei-as e fiquei aguardando um retorno.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No dia 19 rumei para Ribeirão Preto, com três  objetivos. O primeiro, profissional, era dar uma palestra. O segundo, me encontrar com a Ruiva, que conhecera alguns meses antes. O terceiro, ir à Faculdade de Farmácia, onde a Ruiva fazia seu mestrado, e levantar o histórico escolar de meu pai &amp;ndash; que se formara lá na segunda metade dos anos 30.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A Ruiva foi me esperar no aeroporto. Reparei que estava mais bonita, mais viçosa. Perguntei o que estava acontecendo e ela me respondeu com olhar comprido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fomos à faculdade. Depois rumei para o hotel, tomei banho, ela me pegou e fomos para a palestra. Era minha primeira palestra que ela assistia. Mas não prestava atenção. Estava distraída, absorta. E assim continuou no restaurante a que fomos, em seguida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Chegamos no hotel perto da meia noite. Deitamos. Era meia noite e pouco quando me lembrei que ela tinha dito que fora ao médico. Perguntei o que tinha ido fazer e ela, nada.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ironizei: &amp;ldquo;Vai ver está grávida!&amp;rdquo;. Sua resposta me proporcionou a maior surpresa de minha vida. &amp;ldquo;Estou&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mas como assim?  A surpresa inundou minha alma, com uma intensidade de um choque de 220 volts. Não tinha dúvidas sobe o que ela dizia, mas, ao mesmo tempo, achava que não podia ter filhos. Tinha uma varicocela forte, da qual precisaria ter operado muitos e muitos anos atrás. Mas quando as primeiras menininhas chegaram em minha vida, pensei prá que? Faz diferença ser pai biológico? Não faz. Então, sem tratamento.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agora, a notícia me pegava de chofre, um presente que jamais poderia imaginar em toda minha vida: a oportunidade de voltar a ser pai de novo. Voltei para São Paulo aturdido, ainda sem acreditar, torcendo para que não fosse apenas um sonho.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A gravidez, a Ruiva passou em Ribeirão Preto, terminando seu mestrado. Conversávamos todas as noites, discutíamos o nome da criança, curtíamos O Grande Circo Místico. E decidimos pelo nome Beatriz, em homenagem à Beatriz do Circo e ao significado: &amp;ldquo;aquela que traz felicidade&amp;rdquo;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com um ano e pouco Bibi começou a falar, inexplicavelmente, com um sotaque estranho. Um dia chamei minha irmã Fátima, pedi para conversar com a Bibi. A Fátima levou um susto com o sotaque de quem mal sabia pronunciar algumas palavras. Era o mesmo sotaque de tia Rosita, mulher do tio Léo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Hoje Bibi completa dez anos. Dez anos de uma história mágica. É uma menina meiga, sábia, de uma sabedoria ancestral, doce que, aos cinco anos, dizia que seu sonho era ser uma &amp;ldquo;menina gentil&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Parabéns, Bibi!&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Guastavino e o culto da gentileza&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Crônica de 2003&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando a babá empurrou a Bibi para me mostrar o trabalho da escola, admito que meu coração mineiro bateu mais forte. Especialmente quando ela se define como uma ?menina gentil, que falava bom dia e boa tarde e tinha um porteiro muito amigo dela?.&amp;nbsp; Ela tinha apenas seis anos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Conferi ao sair de casa e levar ela e a Dodó à aula de natação. Dobramos a esquina da Rua Pernambuco, entramos na Rio de Janeiro e estava lá, no prédio de esquina, o porteiro abanando a mão para as duas. Já se tornaram amigas de todas as pessoas que fazem ponto no trajeto da escola à nossa casa. No apartamento anterior, desciam a Rua Sergipe, davam uma entradinha no salão de manicura, cumprimentavam as moças, uma a uma. Andavam mais um pouco, cumprimentavam o &amp;quot;vozinho&amp;quot;, um senhor aposentado que fica sentado em uma banca de revista da esquina da Veiga Filho. Cumprimentavam o jovem dono da banca. Quando chegavam ao prédio, diziam &amp;quot;boa tarde, seu Manuel&amp;quot;, para o porteiro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Aí caiu a ficha sobre o significado desse valor tão menosprezado nos dias correntes: a gentileza. Meu pai era um poço de gentileza, capaz de conferir o mesmo tratamento ao lixeiro e à personalidade. Seu círculo de amigos era formado apenas por pessoas gentis, de todos os círculos sociais. Trata-se de um valor tão suave que não nos damos conta de seu enorme poder de atração dos iguais. Eram amigos de papai o Dr. Martinho de Freitas Mourão, médico, ex-prefeito de Poços, um poço de gentilezas, como o professor Antônio Cândido, o Chafik Frahya, o ex-Ministro da Cultura Aluízio Pimenta, o Sebastião Menelau, e outras pessoas que freqüentavam diariamente a farmácia, algumas atrás de remédios, todas atrás de bom papo. A gentileza se manifesta não apenas nos gestos, no cerimonial, mas na voz baixa, na maneira de ouvir o interlocutor, sempre valorizando o que diz, na paciência em ouvir queixas, no princípio sagrado de sempre retribuir outras gentilezas. E me dou conta de que não herdei esses atributos do meu pai. Sou por demais egocentrado, distraído, dispersivo para fazer parte do clube refinado das pessoas gentis. Mas a Bibi, não. No dia 25 de março de dois anos atrás, mandei-lhe um poema por e-mail: ?Estava sozinho na vida, / Com dores no coração, / Quando um anjo atrevido / Me procurou algo aflito / Com um bilhete esquisito / Trazendo uma predição. / Em breve seriam minhas / A capetinha Dodô / A madaminha Bibi / E Clara, sua sobrinha?. Bibi não deu sossego à baba Tati. Queria aprender como se faziam poemas. A Tati passou uma receita simples. Que se lembrasse de alguma poesia que lhe contaram na escola, mudasse as palavras e pensasse em alguém para oferecer. Ela baseou-se nos dois primeiros versos de que se lembrava e me deu esse presente:&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;img width="350" height="272" alt="" src="http://www.projetobr.com.br/image/image_gallery?img_id=129&amp;amp;large=1" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E, de gentileza em gentileza, cheguei ao tema da minha crônica: Carlos Guastavino, o mais gentil dos compositores. Nascido em 1912 em Santa Fé, a mesma cidade em que meu pai nasceu quatro anos depois, falecido em 2000, Guastavino tornou-se internacionalmente conhecido quando Martha Argerich e Nelson Freire arrebentaram com &amp;quot;Bailecitto&amp;quot;, dele.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Aproveitei minha última ida a Buenos Aires para adquirir tudo o que pudesse de Guastavino. Tem uma obra pianística de primeira. Mas seu pai musical atende pelo nome de Heitor Villa Lobos. Tem um conjunto de peças de piano claramente influenciadas pelas cirandas de Villa Lobos, e algumas canções românticas (como o clássico &amp;quot;La Tempranera&amp;quot;?), da mais genuína escola brasileira da canção, uma peça à altura de Heckel Tavares ou Tom Jobim pré-bossa nova. Seu romantismo não é piegas, exagerado. Pode ser intenso, como em ?La Tempranera?, mas no geral é leve, lírico. E porque essa relação com os amigos de bairro da Bibi e da Dodô? Porque uma das partes mais linda de sua obra são as peças dedicadas aos seus amigos do dia a dia, a ?Ludovina?, ?Horácio Lavalle?, ?Pablo del aeroparque?, ?Alina, de la calle Lacroze?, ?Cassandra, de la calle Galileo?. Como diria Chico Buarque, com suas definições definitivas, trata-se de um poço da delicadeza, que me ajuda a entender as raízes santafecinas de seu Oscar.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 03 May 2008 22:24:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O gênio que se perdeu</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=6910</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;&lt;strong&gt;Crônica de 19/02/2005&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;O evento terminou perto das dez da noite. Era convenção de um banco e me convidaram para um trote no pessoal. No meio do jantar, entraria no palco como se fosse dar uma palestra de economia. Antes que sobreviesse a indigestão geral, conduziria uma roda de choro. Levei um time da pesada, o Zé Barbero, no sete cordas, o Stanley na clarineta, o Alexandre no trombone, o Joãozinho Torto no cavaquinho e a Roberta no pandeiro.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Sai dali direto para o Ó do Borogodó, com a minha filha Luizinha, uma mocinha adulta, linha nos seus 21 anos. Ia se apresentar um duo de violão, um deles o Mineiro, um dos mais sofisticados violonistas aqui de São Paulo, mais um aluno, menino de pouco mais de vinte anos.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Enquanto afinavam o violão, fiquei matutando sobre a qualidade da nova geração de músicos. De vez quem quando baixo no velho bar do Alemão, e, em um dos dias da semana, se apresenta uma rapaziada também mal passando os vinte anos, todos com talento e, muito mais do que na minha geração, com formação musical.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Estava imerso nesse pensamento quando o moreno forte veio em minha direção. Estava com esses calções longos, tênis, compleição saudável. Demorei um tempo para reconhecer o menino Charles da Flauta, agora adulto de mais de trinta anos, tentando um penoso recomeço.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Conversa comigo, mostra carinho, evita olhar muito para a moça ao meu lado, suspeitando que fosse alguma paquera de coroa assanhado. Quando lhe disse que era Luizinha, derreteu-se, lembrando-se de mais de dez anos atrás.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Contou da luta contra as drogas, das reuniões nos Alcoólicos Anônimos, do casamento com uma moça que está colocando-o na linha. &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Enquanto fala, minha memória salta para 16 anos atrás, em uma manhã em que levei a Luizinha e a Mariana para passear na praça da República. Chegando, vi três moleques batendo bola e carregando instrumentos, flauta, violão e cavaquinho. Quando começaram a tocar, parei. O som que vinha da flauta não era desse mundo.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;O rapaz acompanhava o irmão  gêmeo, que cantava bonito, mas fazia tais floreios, com tal segurança, que não tive dúvidas de estar diante de um gênio.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Perguntei o nome dos três, eram Charles da Flauta, o gêmeo Reinaldo, do violão, e o Alex do cavaquinho. Tocavam na rua com o pai, um sujeito bronco, bovino, mas de boa índole, que mascateava enquanto os filhos tocavam.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Perguntei onde ficavam durante a semana. No final de semana seguinte convidei o produtor musical Aluízio Falcão para conhecer os meninos. Pedi para Charles tocar &amp;ldquo;Primeiro Amor&amp;rdquo;, de Patápio. Envergonhado, disse que não sabia. Antes do final do dia, foi ao Hilton Hotel, onde estava hospedado o grande Altamiro Carrilho, e ficou telefonando para o apartamento, até que o músico descesse e aceitasse lhe ensinar a valsa. Aprendeu na hora. E é uma das peças mais complexas da flauta brasileira.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Dali saiu o LP &amp;ldquo;Pingo de Gente&amp;rdquo;, patrocinado pela Eletropaulo, graças ao Audálio Dantas, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas..&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Antes do lançamento do LP, percebi que Charles iria estourar em todo o país. Levei sua família em casa, expliquei que certamente teriam sucesso, que seriam convidados para tocar no programa da Xuxa e em outros mais, que ganhariam dinheiro, mas que tudo era provisório: que aproveitassem o momento e não se deslumbrassem.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Bobagem, pretender que aqueles meninos pudessem entender sequer de longe o novo mundo que se abriria para eles. Mesmo assim, convenci o Audálio a contratar o velho Carrasqueira, o &amp;ldquo;canarinho da Lapa&amp;rdquo;, mestre de todos os flautistas de São Paulo, para ministrar aulas a Charles.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;O disco estourou, conforme o previsto, e Charles passou a ser incensado, de imediato, pelo Olimpo musical brasileiro. Foi convidado para tocar com Paulo Moura, Arthur Moreira Lima, apareceu em programas de televisão e, em um encontro de músicos de rua, na Holanda, patrocinado pela Unesco. Foi considerado &amp;ldquo;hors concurs&amp;rdquo; e voltou com uma medalha, que pediu para a Ica guardar para ele.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;O sucesso virou a cabeça deles e, antes deles, do pai. Deixou as aulas com Carrasqueira e, junto com os irmãos, tiveram conflitos de monta, especialmente após o pai ter se casado de novo. Chegaram a passar uma temporada na Febem, mesmo não tendo cometido crime algum.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Quando Charles estava próximo de fazer 18 anos, achei que estaria maduro para um passo maior. Chamei-o para conversar. Dias antes, tinha conversado com o maestro Júlio Medaglia, que conseguiu que Charles fosse aceito pelo primeiro flautista da Filarmônica de Berlim. O alemão entrou em êxtase quando ouviu o LP de Charles, e aceitou na hora ser seu professor.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Originalmente, um músico com formação de sopro, Medaglia não tinha dúvidas: se se dedicasse um ano aos estudos, Charles seria o maior flautista do mundo. O mesmo me disse Arthur Moreira Lima, o mesmo me disse Baden Powell.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Com o professor alemão aceitando o aluno, conversei com um irmão do Décio e do Cláudio Tozzi, diretor da Phillips, que conseguiu que a empresa bancasse a bolsa.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Quando perguntei ao Charles se gostaria de estudar no exterior, ficou um pouco indeciso, com receio de abandonar a família, que dependia do seu talento. Conversei com o Comandante Rolim, que imediatamente empregou a família toda para tocar na sala de embarque da TAM, inaugurando o espaço musical.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Os músicos alemães chegariam ao Brasil em agosto, para uma turnê, e levariam consigo Charles. Em junho, Rolim me encontrou na sala de embarque, e me disse que algo estava errado com o Charles. Andava irritadiço, atrasando nas apresentações, ia muito ao banheiro.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Chamei os dois gêmeos em casa para uma conversa. No dia seguinte minhas filhas deram pela falta de brinquedos. Um comerciante de Cotia ligou reclamando de um cheque meu que recebera, e cuja assinatura não conferia.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Estava claro que a droga tinha conquistado mais dois adeptos. &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Conseguimos com o Laco, ex-pediatra de nossas meninas, sua internação em uma clínica de drogados. &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;O tratamento durou dois meses. Foi o último momento de tranqüilidade dos irmãos. Íamos lá aos finais de semana, eles contaram a história da mãe, que morreu em seus braços quando tinham nove anos, compuseram músicas para minhas menininhas, escreveram cartas de agradecimento.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Quando saíram, hospedei-os durante algum tempo em um quartinho no predinho da Dinheiro Vivo, na rua Maria Antonia. No O primeiro dinheiro que conseguiram, em shows, gastaram com mulheres e drogas.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Foi feita uma última tentativa de recuperação dos moços. Quando percebemos que estavam se envolvendo com traficantes, desistimos.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Passei a receber informações picadas dos irmãos. O Alex que, pela aparência parecia ser aquele com maior vocação para desvios, revelou-se um rapaz maduro, sério, que jamais se meteu com drogas. Já os gêmeos prosseguiram sua vida, de cabeçada em cabeçada. Ora vinham notícias de pessoas que os viram dormindo na rua, ou entrando em ônibus para pedir esmolas.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Foi o flautista Carlos Poyares, já falecido, que um dia me contou que Charles estava preso. Deu uma facada em alguém. Depois, foi libertado.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Agora está em uma dura luta pelo recomeço. De vez em quando, tem recaídas, mas consegue se levantar. Pensa em ter filhos, sabe que pode ser importante para ele. Voltou a praticar a flauta. Me conta que está tirando a valsa &amp;ldquo;Desvairada&amp;rdquo;, de Garoto, o &amp;ldquo;Primeiro Amor&amp;rdquo;, de Patápio.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" face="Verdana"&gt;Se tudo der certo, poderá ser um bom músico, um bom pai de família, seguindo o exemplo de Alex.&lt;br /&gt;Mas o Charles da Flauta, o menino que despontava como sucessor de Altamiro, e como o futuro maior flautista do mundo, não existe mais. Que Deus salve o Charles Gonçalves do destino que fulminou o menino Charles da Flauta.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Thu, 27 Mar 2008 12:35:00 GMT-03:00</pubDate>
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    <item>
      <title>Conversas com dona Tereza</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=6839</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;De 18/04/2003&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Dia 12 último foi seu aniversário de nascimento, não me esqueci. À tarde juntei minha tropa, as menininhas e as meninonas e fui almoçar na praça Vilaboim. Depois passei na loja de música e sem pressentir comprei um CD de Carlos Galhardo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;À noite, em casa sozinho, coloquei o CD no computador e estava escutando, quando a Lourdes telefonou lembrando da data. Naquele momento o CD entrou na faixa 12, da valsa &amp;ldquo;Último Beijo&amp;rdquo;, de Jorge Faraj e Roberto Martins. &amp;ldquo;Na carta, nem o nome ela escreveu / adeus, e torturando o meu desejo / igual aos falsos beijos que me deu / a mancha de carmim de mais um beijo&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi uma música que entrou no meu cérebro, ainda criança, cantada por sua voz límpida e depois ficou adormecida em algum lugar da memória. Alguns anos atrás, em uma rodada, um amigo levantou o tema e as lembranças afloraram com a força do vulcão de Poços de Caldas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Só então me dei conta que a senhora tinha preferência por duas valsas de nome &amp;ldquo;Último Beijo&amp;rdquo;. A que eu sempre me lembrava era a do Zequinha de Abreu, gravada pelo Roberto Fioravanti. A primeira vez que visitei a casa Manon, em São Paulo, com dez anos de idade, fiz questão de comprar a partitura em piano, que tirei para tocar para a senhora. Lembra? Agora, passando a Semana Santa em Poços de Caldas, quando a noite avança saio pelas ruas refazendo os mesmos caminhos que a senhora percorria.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No trajeto entre a Farmácia Central, no início da rua Rio de Janeiro, e a nossa casa, no final da rua, me lembrei da senhora carregando sua sacola, ou alguma cesta, e parando em cada casa do caminho para conversar. Como gostava de conversar! Às vezes precisava parar para superar uma angina fortíssima, fruto de um hipercolesterol que a levou aos 63 anos, mas que jamais abateu sua força ou sua verve.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Fiquei lembrando das noites em nossa casa, eu mais a Regina, a Fátima e a Inês &amp;ndash;a Lourdes ainda era bebê&amp;mdash; sentados em torno da sua cama, ouvindo-a cantar as valsas do seu tempo. Como a gente caçoava, depois, de sua paixão por Galhardo. A senhora gostava tanto dele, que aquele LP de capa azul não saia da vitrola. Sei que a senhora não vai acreditar, mas não fui eu quem sumiu com o LP. Ele gastou mesmo, de tanto tocar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com todo respeito, ainda temos calos no ouvido de tanto ouvir a senhora contar a história da Revolução de 1932, e de como se escondeu com meus avós em uma fazenda para fugir das tropas mineiras. Foi uma autêntica constitucionalista aos 6 anos de idade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Acho que a única vez que a gente conseguia devolver suas gozações era quando juntávamos com as primas para dizer que a senhora representava os derrotados de 1932. No mais, a liderança da gozação sempre foi sua.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Até mesmo quando ironizava a fama de separatista dos paulistas, cantando a paródia de &amp;ldquo;Fita Amarela&amp;rdquo;: &amp;ldquo;Quando eu morrer / não quero choro nem lista / só quero uma fita paulista / gravada separatista&amp;rdquo;. E como a senhora foi linda! Sempre que me encontro com o professor Antônio Cândido ele se recorda de sua beleza, que nem o tempo reduziu, nem a doença prejudicou. Eu fico ouvindo, todo coruja.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agora, cá para nós, não foi fácil esse tempo todo ficar me indagando se tinha cumprido os compromissos, atendido às suas expectativas, se não tinha cedido ao acomodamento ou a qualquer forma de prazer supérfluo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Podia ter maneirado um pouco, né?, reduzido o teor de auto-crítica. Podia ter permitido alguns momentos de deslumbramento, de comemoração de um ou outro sucesso, sem me sentir ridículo. Lembro da sua neta Luizinha, em um desses momentos, me dando um puxão de orelha: &amp;ldquo;Pai, para de pensar no dia seguinte, curte o momento, que é seu!&amp;rdquo;. E quem disse que sua lembrança deixava.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agora que a maturidade avança, com a chama ainda acesa, mas com alguma obra legada, quando se olham as filhas e sobrinhos crescendo, sendo formados na mesma massa que a senhora legou, a idade autoriza momentos de relaxamento. Já estava sentindo falta mesmo, de um daqueles nossos bate-papos que ficaram interrompidos por algum tempo, por algum conflito mal resolvido.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 21 Mar 2008 21:30:00 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>O último comunista</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=6735</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Crônica de outubro de 1998&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Conheci o eletricista Sebastião Trindade na casa de meu avô materno, Issa Sarraf, udenista dos bravos, trocando informações sobre santos com minha avó rezadeira. Aí me contaram que era o único comunista de Poços de Caldas. Menino de 7 anos, fiquei muito impressionado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Por aqueles tempos, 1957, houve uma aliança estadual entre o PSD mineiro e o Partidão e, em Poços, os Junqueira precisaram transferir para Trindade os votos de alguns currais eleitorais, para dar quórum, viabilizando o pacto.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Já havia um radicalismo ideológico claro nos grandes centros, mas Poços praticava um comunismo à mineira: de dia as batalhas ideológicas, de noite as tertúlias no Bar e Restaurante Serigy, do meu avô, que os adversários apelidavam de &amp;ldquo;o caldeirão do diabo&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Trindade fincou torres de petróleo em toda região, na campanha do &amp;ldquo;petróleo é nosso&amp;rdquo;, foi preso em 54, 64, 72. E jamais perdeu a verve e o gosto pelos &amp;ldquo;causos&amp;rdquo;. A história, para ele, é um grande &amp;ldquo;causo&amp;rdquo;, com personagens fantásticos &amp;ndash;íntimos dele, como os caiporas e sacis que, na época, freqüentavam assiduamente a região, até serem expulsos por Ets, transportados por discos voadores.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Lembro-me até hoje, eu com 6 ou 7 anos, brincando com o marido recém-casado de minha tia &amp;ndash;o futuro grande jornalista Luiz Fernando Mercadante, então com 20 anos&amp;mdash; quando uma senhora se ajoelhou contrita aos meus pés. Ao lado, Trindade gargalhando.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Algumas semanas antes, havia saído no jornal local um retrato meu, de gravata borboleta. Trindade recortou, e levou para a mulher: &amp;ldquo;Você não é devota do santo Antoninho Marmo? O retrato dele saiu no jornal&amp;rdquo;. Durante meses, meu três por quatro mereceu um altarzinho e um copo de água com azeite, onde boiava uma velinha permanentemente acesa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Essa caso foi pinto perto do que Trindade aprontou na posse de JK no governo de Minas. Recebeu uma passagem de avião do Partidão para ajudar na agitação em Belo Horizonte. No meio do vôo, sentado em uma cadeira perto da cabine do piloto, ouviu o comunicado da torre perguntando se o &amp;ldquo;perigoso comunista Sebastião Trindade&amp;rdquo; estava no vôo, porque no aeroporto estavam dois agentes do DOPS aguardando para prendê-lo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Mal o avião tocou o solo, Trindade saltou na frente de todos perguntando em voz alta por &amp;ldquo;alguém do DOPS aí?&amp;rdquo;. Apresentaram-se os dois. E ele: &amp;ldquo;Quem viajou comigo no avião é aquele comunista, Sebastião Trindade, vestido de terno cinza e gravata amarela, e armado&amp;rdquo;. Na tarde daquele dia, um jornal vespertino de Belo Horizonte dava em manchete: &amp;ldquo;DOPS prende por engano novo presidente da Caixa Econômica Estadual&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Reencontrei Trindade na campanha de Tancredo Neves ao governo mineiro, em 1982, no início da grande marcha pelas diretas. Ficamos juntos no palanque, apreciando os discursos. Provoquei-o apontando o vice Hélio Garcia, udenista de velha cepa: &amp;ldquo;Como se sente em companhia dele, Trindade?&amp;rdquo;  &amp;ldquo;Nenhum problema, Luisinho, ele será o nosso Kerensky&amp;rdquo;, retrucou.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Naquela noite, desfiou noite a dentro interpretações sociológicas sobre a criação do cristianismo, que me abstenho de relatar por respeito a todos os cristãos, especialmente minha avó, mas que, de qualquer modo, passava por uma grande bronca de Maria com um &amp;ldquo;sordado&amp;rdquo; romano, o que a levou a incutir em Cristo idéias anti-imperialistas&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O fim da guerra fria pegou Trindade meio no contrapé. Ela já não havia gostado nada das denúncias dos crimes de Stalin, que atribuía a uma manobra sórdida da CIA.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando teve início a Glasnot, no Quisisana &amp;ndash;belíssimo hotel construído pouco antes do jogo ser proibido, que depois virou condomínio&amp;mdash; vejo Trindade numa roda, explicando para um grupo de paulistas a estratégia de Gorbatchev,&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;ldquo;Gorbatchev é um gênio&amp;rdquo;, dizia ele. &amp;ldquo;Percebeu que o capitalismo está com seus dias contados e só vai sobreviver mais um pouco por conta da guerra fria. Aí ele decidiu tirar a Rússia de campo, para suspender a guerra fria e acelerar o processo de queda do capitalismo. Quando o capitalismo estiver morto, o comunismo volta&amp;rdquo;. Depois que o grupo se desfez, todos ensimesmados, absorvendo aquela aula de estratégia política do Trindade, perguntei: &amp;ldquo;Você acredita mesmo no que disse? &amp;ldquo;. E ele: &amp;ldquo;Que nada, Luisinho, esse Gorbatchev é agente da CIA, mais capitalista que os americanos. Mas eu não podia dar o braço a torcer para essa burguesada malufista&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não sei em quem Trindade votou nessas eleições. Provavelmente fez discursos por todo o bairro da Cascatinha contra o &amp;ldquo;neoliberalismo&amp;rdquo;, usando os mesmos refrões que sempre utilizou contra o &amp;ldquo;imperialismo ianque&amp;rdquo;. &lt;br /&gt;Conheço poucos brasileiros, em São Paulo, Brasília e adjacências, que tenham dedicado mais tempo de sua vida a pensar o Brasil, que meu amigo Sebastião Trindade, o último dos comunistas.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 09 Mar 2008 20:05:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>A dança ritual das lembranças</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=6645</link>
      <description>&lt;p&gt;Há uns dez ou doze anos dia fui a um terapeuta indicado por uma amiga. Ele trabalhava com uma técnica desenvolvida a partir dos anos 50 nos Estados Unidos. Partia-se da constatação de que cada trauma de vida, cada momento infeliz, gerava tensões no corpo, naquela rede de vida e energia que envolve os ossos, o sangue e os mantém sob a pele. À medida que o terapeuta identifica e vai desmanchando os nós, as lembranças afloram com a força de um furacão, como se os fatos fossem da semana anterior.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em alguma parte do corpo tenho os nós da última visita à casa de infância. A mudança já tinha vindo com minha família para São Paulo. Eu já estava aqui há alguns anos. Saí de São Paulo no sábado, para minha despedida solitária. Cheguei a Poços, entrei na casa, passei por cada cômodo vazio, contemplei cada vestígio de lembrança, pensei nos velhos deixando toda sua história para trás e chorei em cada sala, em cada quarto e no quintal silencioso. Até algum tempo atrás, o fantasma da casa vazia me acompanhava nos meus piores pesadelos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Certamente, o terapeuta encontraria os nós da noite que varei na estrada, com meu primo Oscar, vindo de Poços para um Pronto Socorro da Rua Ribeirão Preto, em São Paulo, onde meu pai estava internado com um AVC grave. Parte dos nós se formou na entrada da UTI, quando ele via em cada pessoa da sala, em mim, na Regina, o vulto dos irmãos falecidos. Chamava-nos de Felipe, Clara e Rosita.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Muitos nós se formaram na manhã seguinte, quando fui até nossa casa pegar seus documentos. Não há impotência maior do que invadir o dia a dia de uma pessoa abatida por morte ou doença grave. É como se captasse as últimas esperanças antes da desgraça; ou os últimos sinais de desespero antes da tragédia. E que ambos não servissem mais para nada.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Abri sua carteira, olhei os documentos, o pequeno patuá que alguém lhe deu para espantar o azar, a carteira de trabalho, o hollerith com o último salário. Encontrei o carnê do primeiro patrimônio que ele começava a tentar comprar, depois de perder os bens de toda uma vida: uma linha telefônica. Fui até o guarda roupa para apanhar algumas camisas. Estavam lá, todas impecavelmente brancas, impecavelmente limpas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Outros nós se incrustaram na alma, quando, anos depois, o internei em uma Clínica de Saúde, para preservar dona Teresa, supondo-o tendo perdido completamente a razão. Mas voltei no dia seguinte retirá-lo e trazê-lo de volta ao lar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Haverá nós da última noite de dona Tereza. Das onze da noite da véspera, quando me deu uma bruta ansiedade e passei na Beneficência para o que nem supunha fosse a despedida. Até o telefone que tocou de madrugada do hospital, e que pela primeira vez não me acordou, eu que passava noites sobressaltado com campainhas de telefone me convocando para levar dona Tereza ao Incor. Nós e nós quando cheguei ao andar e minhas irmãs me olharam com olhos de &amp;quot;acabou&amp;quot;. E outros nós quando, no velório, contemplei os olhos sofridos de vó Martha, cuja dor de mãe jogava para segundo plano dores de filhos e irmãos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Certamente um dos nós será para Luizinha, quando, aos doze anos, soube da separação, silenciosamente desceu ao seu quarto e montou um quadrinho com fotos do pai e da mãe e colou no seu quadro de avisos. E outros para Mariana, nas duras conversas para ajudar a arrancar a angústia que sufocava seu coração de adolescente.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E aí me dou conta que felizes são aqueles que conseguem, no dia-a-dia, sufocar esse inventário de pequenas e grandes tragédias que acompanham todas as pessoas. Muitas vezes os nós vêm como armadilhas, como laços amarrando para sempre vontade e futuro à celebração soturna de cicatrizes abertas. Ou então estimulando o sentimento destrutivo da autocompaixão ou, pior, do arrependimento.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Para mim são lembranças fundas, que vêm me visitar vez por outra, quando os fins de semana são um pouco mais vazios, e as saudades um pouco mais apertadas. Convivo com esses fantasmas quando descem do sótão da lembrança, acolho-os, abrigo-os ao som de uma música adequada. Depois, com toda gentileza despacho-os de volta ao seu espaço, ajudado pelo ritmo piedoso da semana de trabalho, que impede a cabeça de surfar pelas ondas das más lembranças.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Meu receio é na hora da partida, os fantasmas surgirem e, valendo-se da fraqueza dos moribundos, entrarem travestidos de remorsos ou arrependimento. Até lá, creio que serão exorcizados para sempre das lembranças, e apareçam apenas como inspiradores de reencontros, que só a partida permite.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 02 Mar 2008 09:15:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
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      <title>Eternamente BB</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=6113</link>
      <description>&lt;p&gt;Estava ouvindo um especial sobre a música francesa na rádio Cultura FM. A penúltima música foi com Brigite Bardot, quando ela tinha 18 anos de idade. Voz afinada, de cantora mesmo, não apenas uma carinha bonita com voz digitalizada. E aí me deu conta que na minha adolescência, nos anos 60, não houve símbolo sexual que se igualasse a Brigite, ou BB, como era chamada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela surgiu para o mundo no filme &amp;quot;E Deus Criou a Mulher&amp;quot;, de Roger Vadin, cineasta francês que se especializaria em descobrir símbolos sexuais em sua vida ativa, e a contar prosa depois que se aposentou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os americanos tinham MM, Marilyn Monroe, mas era típico produto de Hollywood, com um lado tão artificial quanto seus cabelos oxigenados. Calhou ter um final trágico, o que ajudou a alimentar a lenda. Mas o que significava ela na época? Admito que estou exagerando um pouco nas críticas, nesse vezo de cronista de valorizar o personagem do dia, desqualificando os concorrentes. Mas que MM nunca chegou a BB, não chegou mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia uma concorrência forte das italianas, mulheres mais sólidas, mais carnais, de uma sensualidade de camponesas fogosas. As primeiras que apreciei foram Sofia Loren e Gina Lollobrígida. Depois, veio uma geração de mulheres lindas, como Cláudia Cardinale, Laura Antoneli, Virna Lisa, que era minha fixação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já as francesas primavam por uma sensualidade sofisticada, cosmopolita, bastante reforçada pelo idioma. O sotaque francês era &amp;quot;chic&amp;quot;. Lembro-me particularmente de Milene Demongeot, que me despertou paixões desenfreadas na adolescência, de um jeito muito diferente daquele que, antes dos 12 anos, sentia por Ava Gardner e Kim Novak.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Brasil, esse padrão francês foi bastante explorado na televisão, no teatro de revista e no cinema. Lembro-me até hoje de um especial da TV Tupi com Norma Benguel cantando em francês, provavelmente imitando BB. Anos mais tardes, Jaqueline Mirna e Anik Malvill deliciaram a minha e outras gerações já saindo da adolescência. Mas o grande modelo, no qual se inspirava a malícia mundial, era mesmo BB. Tudo nela soava natural, dos bicos que fazia às poses em que se deixava fotografar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o início da erotização da adolescência, da descoberta que os jovens já não eram tão inocentes quanto os das gerações anteriores. Mas as atrizes adolescentes americanas da época eram completamente sem sal, como Sandra Dee, ou com aquele ar de quem está sempre prestes a ser castigada pelos pecados cometidos, como Natalie Wood. Em plena descoberta do público juvenil, os setores mais intelectualizados celebravam Françoise Sagan; os boyzinhos se espelhavam em James Dean, Marlon Brando e Elvis Presley. Mas todos, indistintamente, tinham BB como o símbolo máximo. Ela encantava dos jovens politizados aos donos de borracharia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os passos de BB eram acompanhados pelo mundo todo. Foi uma comoção mundial quando ela se casou com Sacha Distel, guitarrista francês boa pinta. Mas quando ela começou a namorar o brasileiro-marroquino Bob Zagury, a auto-estima nacional atingiu seu ponto máximo. Mais ainda quando Zagury a trouxe para conhecer Búzios, na época uma praia quase selvagem, começando a ser descoberta pelos granfinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de BB, algumas jovens atrizes chegaram perto, mas não se completaram. Como Jane Fonda durante &amp;quot;Barbarella&amp;quot;, esculpida pelo mesmo Roger Vadin que criou BB. Durante um bom período foi um dos símbolos femininos do cinema, como grande atriz, grande personalidade, não mais como símbolo sexual. Após o &amp;quot;Último Tango em Paris&amp;quot;, com Marlon Brando, Maria Schneider pintava como legítima sucessora de BB, mas acabou engolida pela vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, quando se vai ao cinema, todos os símbolos femininos são americanas. O cinema americano atingiu tal nível de predomínio que não sei o nome de nenhuma jovem atriz italiana, francesa, sueca. por isso que fico nessa recordação besta, celebrando as americanas, as italianas e as francesas do meu tempo, naquela que foi o sonho de todos nós, a eternamente BB.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Wed, 16 Jan 2008 22:38:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Os 92 anos do seu Oscar</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=6053</link>
      <description>&lt;p&gt;Hoje, seu Oscar faria 92 anos. Republico comentário que recebi de um leitor que postou no Blog, quando ainda estava na UOL. Depois, nunca mais entrou em contato.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;De&amp;nbsp; Marcos Ritel Franco.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&amp;ldquo;Caro Luís Nassif,&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comecei a ler &amp;quot;Gustavino e o Culto da Gentileza&amp;quot; (clique aqui) e fiz uma viagem pelo tempo, por volta dos anos 70. Lembrei-me que, um dia, um menino de 13 anos entrou em uma farmácia, na rua Assis Figueiredo,deparou-se com um senhor e lhe pediu trabalho. Talvez o senhor nem estivesse precisando, viu no menino, entretanto, uma necessidade tamanha que não conseguiu dizer-lhe não. Após contrata-lo, percebeu logo que este não realizava suas refeições no horário de almoço. A partir daquele momento até a venda da farmácia, na hora do almoço, dirigiam-se os dois para sua casa, ele, com o jornal embaixo do braço, e o menino, com as baguetes na mão. O menino passou a partilhar a mesa com a sua família, sem que houvesse, contudo, diferença alguma.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Não sei o porquê, mas ele sabia que, com o seu gesto, ele estava tirando um menino das ruas e dando a ele o sentido de família. O menino cresceu, virou industrial, fazendeiro e construtor, mas permaneceu, sempre em sua memória, o gesto de bondade daquele homem. Fica uma grande vontade de dar-lhe um forte abraço e dizer-lhe obrigado, meu grande amigo, Oscar Nassif&amp;rdquo;.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O e-mail me pegou meio de guarda baixa. Há tempos não me debruçava sobre as lembranças antigas, andava meio afastado do seu Oscar, que se foi em 1988.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não cheguei a conhecer o Marcos. Em 1966 saí de casa para estudar em São João da Boa Vista, dali em 1970 para São Paulo. A farmácia foi vendida apenas em 1974.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O distanciamento de meu pai, forjado na minha adolescência, persistiu pelo resto da vida. Quando chegou em São Paulo, depois de ter perdido tudo em Poços, fiquei ao seu lado, antes e depois do derrame que o vitimou. Mas nunca houve a derradeira conversa, nunca soube muito mais do que minhas tias, suas irmãs me contavam, ou minha mãe deixava escapar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sabia que era generoso. Soube mais depois, quando me contaram que na esquina da Rua Rio de Janeiro com a Assis Figueiredo havia uma disputa para saber, entre ele e o velho Zé Prézia, quem era o mais generoso. Ninguém saía sem remédio da farmácia, mesmo não tendo dinheiro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Minha mãe comentava às vezes sobre sua generosidade, mas com uma admiração contida, fruto de uma mal-disfarçada disputa que acomete casais nos quais as duas partes têm temperamento forte.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Comecei a recuperar a memória do seu Oscar depois da sua morte. Foi o Ari Bolão, amigo de infância do Mauro Ramos de Oliveira &amp;ndash; o grande capitão da Copa de 62, também amigo do velho &amp;ndash; quem me contou que meu pai o viu jogando bola menino ainda, pés descalços, trouxe-o para a farmácia como ajudante. Depois financiou todos seus estudos até a Universidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Anos depois, no Pálace Hotel o porteiro do balneário me contou que certa vez parou na frente da farmácia, e ficou vendo os brinquedos expostos na vitrine. Meu pai o chamou, perguntou se queria algum. Era véspera de Natal. Ele respondeu que queria dar de presente aos filhos, mas estava sem dinheiro. Seu Oscar respondeu que presente de Natal era mais importante que remédio. Mandou-o escolher os presentes e que pagasse quando pudesse.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Há uns dez anos, recebi um telefonema de um pipoqueiro que tinha ponto em frente o cine Gazeta. Me contou que mudou-se menino para Poços. Tinha um problema motor que o impedia de falar. Era início dos anos 70, meu pai já envolvido pela crise financeira que o vitimaria. Pois pegou o menino com seu carro, trouxe até a Beneficência, em São Paulo, pagou o tratamento e, depois que o menino melhorou, comprou para ele um carrinho de pipoca.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;São incontáveis as histórias. E ele não contava para ninguém, sequer para os filhos. Ao mesmo tempo, tinha total incapacidade de lutar por seus direitos. Ficava esperando gratidão, reconhecimento das pessoas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Hoje fico pensando em quantas pessoas, a exemplo do Marcos, ele conseguiu encaminhar apenas à custa de uma gentileza, de uma atenção ou, como no caso do Ari Bolão, de ajuda sistemática até a Universidade. E fico mais convencido que nunca da força irresistível da gentileza como agente transformador de pessoas.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 13 Jan 2008 17:36:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>A música de Laura Pausini</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=5395</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Da Silvana&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nassif,&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um amigo querido me disse que a Laura Pausini &amp;quot;estragou&amp;quot; essa música.Encaminho o vídeo com a tradução para os colegas do blog avaliarem. &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=P1Q17ZFyvz4&amp;amp;feature=related"&gt;Clique aqui&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou como uma árvore nua sem você&lt;br /&gt;Sem folhas sem raízes até agora&lt;br /&gt;Abandonada assim&lt;br /&gt;E para sobreviver não posso ficar aqui pois não&lt;br /&gt;Existe nada que não me faça lembrar de nós&lt;br /&gt;Nesta casa perdida até agora&lt;br /&gt;Enquanto a neve descongela&lt;br /&gt;É quase Natal e você não está aqui&lt;br /&gt;E eu sinto a sua falta amor&lt;br /&gt;Eu sinto a sua falta e como eu rezo a Deus&lt;br /&gt;Nesta ausência de você&lt;br /&gt;Eu gostaria de dizer a você&lt;br /&gt;Que você me faz falta, meu amor&lt;br /&gt;A dor é forte como um longo adeus&lt;br /&gt;E na ausência de você&lt;br /&gt;Há um vazio dentro de mim&lt;br /&gt;Por nossa causa&lt;br /&gt;As nossas almas permaneceram&lt;br /&gt;Em cada capítulo, em cada página&lt;br /&gt;Se fecho os olhos você está aqui&lt;br /&gt;Me abraçando novamente daquela maneira&lt;br /&gt;E vejo nós unidos num só, amarrados&lt;br /&gt;Tão unidos para nunca nos perdermos&lt;br /&gt;Em todas as lágrimas estará você&lt;br /&gt;Nunca se esqueça disso&lt;br /&gt;E eu sinto sua falta amor&lt;br /&gt;Tanto que cada dia eu morro aos poucos&lt;br /&gt;Eu preciso de você&lt;br /&gt;Ter você aqui para lhe dizer&lt;br /&gt;Que eu sinto a sua falta&lt;br /&gt;Essa dor é tão fria como um longo adeus&lt;br /&gt;E na ausência de você&lt;br /&gt;Há um vazio dentro de mim&lt;br /&gt;Eu sinto a sua falta meu amor&lt;br /&gt;Eu sinto a sua falta e rezo a Deus&lt;br /&gt;Pois preciso de você&lt;br /&gt;Pra te sentir aqui comigo&lt;br /&gt;E eu sinto a sua falta meu amor&lt;br /&gt;Tanto que gostaria de te seguir também nesta ausência&lt;br /&gt;Há um vazio dentro de mim&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 24 Dec 2007 11:00:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>.</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=5397</link>
      <description>&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 23 Dec 2007 20:11:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Os últimos gênios desconhecidos</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=5383</link>
      <description>&lt;p&gt;De certa maneira, os gênios brasileiros da música instrumental são relativamente reconhecidos.&lt;br /&gt;Em São Paulo, no entanto, há dois gênios desconhecidos, os últimos da sua envergadura: Casé e Clóvis, ambos Ferreira Godinho -Casé sendo José Ferreira Godinho Filho-, provavelmente os maiores saxofonistas de seu tempo, dos anos 50 ao final dos anos 60.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com base numa fita preciosa de Casé que veio parar em minhas mãos, ouso dizer que, pelo menos em jazz brasileiro, foi o maior que conheci, superior a Vitor de Assis Brasil e a todos os seus sucessores.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Irmãos, ambos nasceram em Gaxupé, perto de Poços de Caldas; Casé em 1932, Clóvis uns três anos antes.&lt;br /&gt;O pai, seu Godinho, tinha uma banda que tocava na região. Um dia passou o Circo Martins pela cidade, o pai pegou a bandinha, com dois filhos que já tocavam, Clóvis e Sebastião, e se engajou ao circo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De 42 a 45, estacionou na Usina Junqueira, em Ribeirão Preto, e, depois, aportou na cidade de São Paulo.&lt;br /&gt;Menino ainda, Clóvis foi contratado pela rádio Record. Casé acompanhou a precocidade do irmão. Com 13 anos, já era o primeiro sax da rádio Tupi.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Clóvis era o pé de boi, o que garantia o sustento da casa e dos irmãos. Francisco Canaro -dono da mais famosa orquestra típica da época, a Típica de Canaro- encantou-se tanto com o rapaz que tentou de todo jeito contratá-lo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em vão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pouca alimentação e drogas o mataram aos 22 anos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2"&gt;&lt;strong&gt;Admiração e saudade&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="2" /&gt;Dele, restaram apenas lembranças de grandes músicos, como de Astor Piazolla que, em uma de suas vindas a São Paulo, queria saber de Amilton Godoy (o pianista do conjunto Zimbo Trio) por onde andava aquele menino genial.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De Clóvis restaram também a admiração incontida e a saudade profunda que acompanhariam Casé por toda a vida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De natureza fechada, quando Clóvis morreu Casé teve explosões de desespero entremeadas por períodos de profunda melancolia, como se recorda o irmão Valter.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Até meados dos anos 60, Casé passou pelos melhores conjuntos de São Paulo.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No início dos anos 60 montou o &amp;quot;Casé e seu Conjunto&amp;quot;, com craques como Amilton Godoy -depois, Zimbo Trio- e seu irmão Adilson Godoy.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Perfeccionista, impaciente com músicos acomodados, exigente a ponto de poucos suportarem suas cobranças, Casé era um mestre insuperável quando encontrava discípulos talentosos.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando escolheu os irmãos Godoy, deixou claro que queria um conjunto com músicos jovens, e não profissionais acomodados.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Do conjunto de baile fez um quinteto de jazz, que se apresentava em alguns teatros em São Paulo, especialmente no Teatro de Bolso, perto da avenida São Luiz.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Adorava Jackie McLean e outros saxofonistas da época e queria adaptar seu som para o quinteto dele. Antes, seu ídolo maior era Paul Desmond.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os ensaios eram sempre aos sábados.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Sexta à tarde, Casé passava na casa de Amilton a quem chamava de Cabeção- com ar de quem não quer nada, mas quer ensinar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando Amilton se enroscava em alguma linguagem mais avançada, ele (que era de sopro) mostrava o acorde ao piano, com quatro notas que compunham um acorde mais sonoro que as oito que Amilton tentava.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&amp;quot;Ele sabia mais que todo mundo&amp;quot;, testemunha Amilton.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Muitas vezes saiu de São Paulo para abrigar sua tristeza em cidades do interior.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Numa dessas vezes, final dos anos 60, foi para Poços de Caldas tocar no conjunto de Frontera, que se apresentava no Palace Cassino.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ficou hospedado na pensão de Mário Nogueira, na rua Pernambuco. Lá chamou a atenção pelo talento e pela tristeza. Provavelmente namorou Nenete, filha de Mário.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Voltou para São Paulo e, em meados dos anos 70, mudou-se da casa de sua mãe para um pequeno hotel nas imediações da rua Aurora.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma manhã de 1978 ligaram do hotel para Valtinho, seu irmão, comunicando que Casé estava morto.Foi espancado até a morte, provavelmente por um investigador de polícia enciumado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Muitos músicos me disseram que, em certa época, Casé foi indicado pela revista &amp;quot;Down Beat&amp;quot; como um dos dez melhores saxofonistas de sua geração.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Não consegui confirmar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;De qualquer modo, naquele hotel de quinta categoria morria não apenas o homem, mas desapareciam os sons do mais brilhante jazz que se fez no país.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 22 Dec 2007 17:12:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Carlos Pena, o poeta do Recife</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=5156</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Por Urariano Mota&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Este blog é de utilidade pública, por isso merece o trabalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do imenso poema &amp;ldquo;Guia prático da cidade do Recife&amp;rdquo;, digito, não copio, digito letra por letra, sílaba por sílaba, somente o começo e o fim do retrato sentimental mais belo do Recife: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;ldquo;O INÍCIO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ponto onde o mar se extingue&lt;br /&gt;e as areias se levantam&lt;br /&gt;cavaram seus alicerces&lt;br /&gt;na surda sombra da terra&lt;br /&gt;e levantaram seus muros&lt;br /&gt;do frio sono das pedras. &lt;br /&gt;Depois armaram seus flancos&lt;br /&gt;trinta bandeiras azuis&lt;br /&gt;plantadas no litoral. &lt;br /&gt;Hoje, serena, flutua, &lt;br /&gt;metade roubada ao mar,&lt;br /&gt;metade à imaginação&lt;br /&gt;pois é do sonho dos homens &lt;br /&gt;que uma cidade se inventa&amp;rdquo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o magnífico encerramento:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;ldquo;O FIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife, cruel cidade, &lt;br /&gt;águia sangrenta, leão.&lt;br /&gt;Ingrata para os da terra, &lt;br /&gt;boa para os que não são.&lt;br /&gt;Amiga dos que a maltratam,&lt;br /&gt;inimiga dos que não&lt;br /&gt;este é o teu retrato feito&lt;br /&gt;com tintas do teu verão&lt;br /&gt;e desmaiadas lembranças&lt;br /&gt;do tempo em que também eras&lt;br /&gt;noiva da revolução.&amp;rdquo; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E copio agora dois sonetos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;ldquo;SONETO DO DESMANTELO AZUL &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, pintei de azul os meus sapatos &lt;br /&gt;por não poder de azul pintar as ruas, &lt;br /&gt;depois, vesti meus gestos insensatos &lt;br /&gt;e colori, as minhas mãos e as tuas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para extinguir em nós o azul ausente &lt;br /&gt;e aprisionar no azul as coisas gratas, &lt;br /&gt;enfim, nós derramamos simplesmente &lt;br /&gt;azul sobre os vestidos e as gravatas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E afogados em nós, nem nos lembramos &lt;br /&gt;que no excesso que havia em nosso espaço &lt;br /&gt;pudesse haver de azul também cansaço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E perdidos de azul nos contemplamos &lt;br /&gt;e vimos que entre nós nascia um sul &lt;br /&gt;vertiginosamente azul. Azul.&amp;rdquo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A SOLIDÃO E SUA PORTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando mais nada resistir que valha &lt;br /&gt;a pena de viver e a dor de amar &lt;br /&gt;e quando nada mais interessar &lt;br /&gt;(nem o torpor do sono que se espalha), &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quando pelo desuso da navalha &lt;br /&gt;a barba livremente caminhar &lt;br /&gt;e até Deus em silêncio se afastar &lt;br /&gt;deixando-te sozinho na batalha &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a arquitetar na sombra a despedida &lt;br /&gt;deste mundo que te foi contraditório, &lt;br /&gt;lembra-te que afinal te resta a vida &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com tudo que é insolvente e provisório &lt;br /&gt;e de que ainda tens uma saída: &lt;br /&gt;entrar no acaso e amar o transitório.&amp;rdquo; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As informações de cartório dizem que Carlos Pena Filho morreu no dia 1&amp;ordm; de julho de 1960, vítima de um acidente automobilístico, aos 31 anos.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 01 Dec 2007 11:30:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O frevo de Claudionor Germano</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=5151</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Por Severino Luiz de Araújo&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Caro Nassif,&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Claudionor Germano completou, no último mês de outubro, 60 anos de vida artística. Portador de atributos inigualáveis de voz na interpretação do frevo, rompeu e atravessou gerações, cantando a nossa mais popular manifestação musical, de ritmo e dança avassaladores, inspiradora de passos acrobáticos e dos mais ardentes movimentos do corpo humano. Desde sua estréia no palco da antiga e famosa PRA-8, Rádio Clube de Pernambuco, em 2 de outubro de 1947, Claudionor levou multidões ao delírio nos famosos bailes do Clube Português e do Clube Internacional, então a Meca da alta e média classes sociais do Recife, nos efusiantes programas de auditório da Rádio Clube, Rádio Jornal do Commercio e Rádio Tamandaré.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Esses marcos dos ainda românticos carnavais do Recife deram lugar à Frevioca, que junta e arrasta ao massas ao longo de nossas espremidas ruas e avenidas, quando a fome de alegria do povão se esvai e se derrama ao som dos velhos/novos frevos de Capiba e Nelson Ferreira, de Luiz Bandeira e Gildo Branco e de tantos outros autores de uma cena musical em constante renovação. No próximo dia 7 de dezembro, no Marco Zero, coração de sua querida Recife, Germano receberá estrondosa e justa homenagem do seu povo. Será um grandioso baile de carnaval ao ar livre, sem &amp;quot;quarta-feira ingrata&amp;quot;, sem hora pra acabar, somente o eco de sua voz se aninhando entre os paredões dos edifícios do velho Porto, imortalizado por incontáveis poetas e trovadores desta velha e maurícia cidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/claudionor-germano.asp"&gt;No Clique Musica&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?nome=Claudionor%20Germano&amp;amp;tabela=T_FORM_A"&gt;No Dicionário Cravo Albim&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Gravações&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00012401&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Boneca&lt;/a&gt;, de Aldemar Paiva Menezes. Gravação de 1955&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00020141&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Manhã de Tecelã&lt;/a&gt;, de Capiba e do grande poeta Carlos Penna Filho&lt;/p&gt;&lt;p&gt;O clássico &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00020142&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;A Mesma Rosa Amarela&lt;/a&gt;, de Capiba e Carlos Penna Filho&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 01 Dec 2007 09:42:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Músicas antigas sobre o negro</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=5012</link>
      <description>&lt;p&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00025176&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Pai joão (o entusiasmo do negro mina) &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Gênero musical Lundu &lt;br /&gt;Intérprete(s) Neves, Eduardo das &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 108174 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1907-1912 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1907-1912&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00014280&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Lamento negro &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Gênero musical Batuque &lt;br /&gt;Intérprete(s) Trio de Ouro &lt;br /&gt;Compositor(es) Silva, Constantino&lt;br /&gt;Porto, Humberto &lt;br /&gt;Acompanhamento Lacerda, Benedito&lt;br /&gt;Conjunto &lt;br /&gt;Gravadora Continental &lt;br /&gt;Número do Álbum 15542 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1940-1941 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 06/1945&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00018202&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Leilão &lt;/a&gt;Gênero musical Cenas coloniais &lt;br /&gt;Intérprete(s) Fernandes, Jorge &lt;br /&gt;Compositor(es) Tavares, Hekel&lt;br /&gt;Camargo, Joracy &lt;br /&gt;Acompanhamento Orquestra Odeon de Salão &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 11032 &lt;br /&gt;Data de Gravação 15/04/1933 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 07/1933&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00026368&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Samba africano &lt;/a&gt;Gênero musical Não identificado &lt;br /&gt;Intérprete(s) Magalhães, Geraldo &lt;br /&gt;Compositor(es) Magalhães, Geraldo &lt;br /&gt;Gravadora Phoenix &lt;br /&gt;Número do Álbum 240 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1913-1918 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1913-1918 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00020279&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Ponto de inhansan &lt;/a&gt;Gênero musical Macumba &lt;br /&gt;Intérprete(s) Marinho, Getúlio &lt;br /&gt;Compositor(es) Marinho, Getúlio &lt;br /&gt;Acompanhamento Conjunto Africano &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 11481 &lt;br /&gt;Data de Gravação 09/03/1937 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 06/1937&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00008901&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Yaou africano &lt;/a&gt;Gênero musical Lundu &lt;br /&gt;Intérprete(s) Teixeira, Patrício &lt;br /&gt;Compositor(es) Viana, Gastão&lt;br /&gt;Pixinguinha &lt;br /&gt;Gravadora Victor &lt;br /&gt;Número do Álbum 34346 &lt;br /&gt;Data de Gravação 00/1938 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00012280&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Nos braços de isabel &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Gênero musical Samba &lt;br /&gt;Intérprete(s) Caldas, Sílvio &lt;br /&gt;Compositor(es) Júdice, José&lt;br /&gt;Caldas, Sílvio &lt;br /&gt;Gravadora Sinter &lt;br /&gt;Número do Álbum 94 &lt;br /&gt;Data de Gravação 00/1951 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 00/1951 &lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Tue, 20 Nov 2007 07:30:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Celebração do negro</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=5010</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Da Helô Lima&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/candeiafilosofiadodamba.mp3"&gt;Candeia - Filosofia do samba&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Do Alysson Honorato&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3" /&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/racamiltonnascimento.mp3"&gt;Raça, de Milton Nascimento&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/paigandemiltonnascimento.mp3"&gt;Pai Grande, de Milton Nascimento&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/sambadoquilombolenine.mp3"&gt;Samba do Quilombo, Lenine&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/zumbi_antonio_nobrega.mp3"&gt;Zumbi, de Antônio Nóbrega&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/o_rei_zumbi_zafrica_brasil.mp3"&gt;O Rei Zumbi, por Zafrica Brasil&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/zumbiafelicidadeguerreira_gilbertogil.mp3"&gt;Zumbi, a Felicidade Guerreira, por Gilberto Gil&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/navionegreirocaetanoveloso.mp3"&gt;Navio Negreiro, por Caetano Veloso&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/negrosadrianacalcanhoto.mp3"&gt;Negro, por Adriana Calcanhoto&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/noitesdonortecaetanoveloso.mp3"&gt;Noites do Norte, Caetano Velloso&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/imagens/umcafune_miltonnascimento.mp3"&gt;Um  cafuné na cabeça de malandro, Milton Nascimento&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Tue, 20 Nov 2007 07:00:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O preto velho de Poços de Caldas</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=5016</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Crônica de 18/10/1999&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;Tive um colega de nome Ildefonso. Achava meio pomposo mas nunca perguntei de quem sua mãe havia tirado o nome. Desde o início do século, aliás, Poços de Caldas era uma cidade de nomes enjoados, conforme anotou o professor Antônio Cândido em um de seus livros. Como havia uma clientela internacional bastante intelectualizada atrás dos supostos poderes miraculosos das águas de lá, tinha motorista de táxis de nome Platão, professores de nome Leibniz e assim por diante.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Muito tempo depois vim a saber que era em homenagem ao seu Defonso, Ildefonso de Souza, primeiro dentista de Poços, falecido em 6 de setembro de 1932.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Acho que toda cidade tem a obrigação de honrar a memória do seu primeiro dentista. Mas estou para ver história mais interessante que a do seu Defonso. Nem se fale do seu modo de tratar os clientes, extremamente fidalgo no trato pessoal, e mais para analista de Bagé quando pegava o marmanjo de jeito na cadeira, suando frio. Ou de seu prestígio político, como chefe e adversário principal do grande prefeito Francisco Escobar. Ou de sua casa, bem em frente à Igreja Matriz, nos tempos em que a rua Assis Figueiredo era chamada de Paraná, onde dona Zefa, sua mulher, exercitava as prendas de quituteira de primeira. As pessoas iam à missa das 6 e depois entravam livremente na casa do seu Defonso para tomar café, incluindo todos os bispos e padres que iam visitar Poços.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Pesava a seu favor, também, o fato de ter sido considerado o decano dos dentistas brasileiros, quando faleceu, e de ter uma clientela internacional, que ia a Poços especialmente para se tratar com ele. E também seu espirito pioneiro, que o fez ter o primeiro rádio de Poços, e ficar no quintal de casa acompanhando o vôo dos urubus, e prevendo que em breve o homem voaria.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Era de assinar todos os jornais e revistas da época, e enviou aos Estados Unidos dois de seus filhos que seguiram a profissão de cirurgiões-dentista &amp;ndash;Salomão e Ossian de Souza que, décadas depois, tornaram-se dois dos nomes mais prestigiados da profissão em São Paulo. Os meninos foram aos Estados Unidos e logo depois dispensados, porque os mestres diziam nada ter para ensinar-lhes.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Seu Defonso, que por obra de um coice na boca ficou com uma fenda nos lábios que o fazia falar assobiado, que nem preto velho de umbanda, não perdoava o cliente que entrava no consultório querendo um dente de ouro: &amp;ldquo;Chê tá ficando louco. Onde que chá che viu isso. Cheu dente vale mais do que ouro&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A alusão ao preto velho não foi coincidência. Seu Defonso era negro, e não apenas isso. Nasceu escravo, em 16 de agosto de 1850 &amp;ndash;21 antes da Lei do ventre Livre, portanto-- em Santo Antônio do Machado, conhecido por Machadinho, perto de Machado, no sul de Minas. Há informações de que escrava era também sua esposa dona Zefa, filha de uma escrava com o dono de uma fazenda em Capivari.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Até os 40 anos, seu Defonso era apenas exímio carpinteiro, depois marceneiro. Para se aprimorar na profissão de marceneiro, seguiu a pé para o Rio de Janeiro, atrás de ensinamentos de grandes artesãos alemães que lá trabalhavam. Foi dispensado por não ter o que aprender mais com eles. Amigo de um de seus netos, o professor Antônio Cândido guardou a informação de que conseguiu, com seus recursos, não apenas a própria alforria como a de dona Zefa.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Foi aos 40 anos que seu Defonso iniciou seus estudos primários. Depois, decidiu ser protético. Mais tarde, dentista prático. Estudou, praticou, tornou-se o melhor. Para calar a boca dos críticos, em 16 de abril de 1902, doze anos após ter se alfabetizado, prestou exame de habilitação na Faculdade de Farmácia e Odontologia de São Paulo, e tornou-se o dentista da região até pouco antes de sua morte.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na primeira metade do século, Poços criou fama na área. Havia outro dentista que chegou a desenvolver técnicas reconhecidas internacionalmente, de utilização de pequenos choques como anestésico. Esse dentista trouxe como protético, do Rio, um mulato magrinho e maneiro de nome Assis Valente, um dos futuros maiores compositores brasileiros do século, mas isso lá pelos anos 30, quando seu Defonso já havia morrido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em Poços, foi vereador, chefe político acatado, convivendo de igual para igual com todas as famílias influentes da região. Quando Ildefonso de Souza morreu em 1932, a revista &amp;ldquo;Odontologia Moderna&amp;rdquo;, de propriedade do &amp;ldquo;Ao Boticão Universal&amp;rdquo; --cujo slogan era &amp;ldquo;o nosso passado é a garantia do que afirmamos&amp;rdquo;-- dedicou-lhe necrológio respeitoso, tratando-o como um dos líderes da classe.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Só vim a saber do seu Defonso há alguns anos, quando me reuni aqui em São Paulo com algumas senhoras poçoscaldenses da época que me contaram sobre ele. Os livros dos historiadores locais falam de passagem de seu prestígio político, mas nada mencionam de sua origem. E não lembro de ter ouvido uma palavra sobre ele do &amp;ldquo;Chico Rei&amp;rdquo; de Poços, o movimento negro liderado há anos pela Tita.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Aí fico pensando cá com meus botões que a condição de negro bem sucedido ainda não goza de muito prestígio nem entre brancos nem entre negros. Para os brancos, pesa a pele negra. Para os negros, a suposta alma branca. Se eu fosse do &amp;ldquo;Chico Rei&amp;rdquo;, tratava de substituir a estátua do Zumbi pela do seu Defonso. Mas acho que não vão apreciar muito a minha sugestão.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Tue, 20 Nov 2007 06:00:00 GMT-03:00</pubDate>
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    <item>
      <title>O negro na formação da música brasileira</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=5019</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Bonfiglio de Oliveira&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00000407&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Roseclair &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Gênero musical Valsa &lt;br /&gt;Intérprete(s) Choro Carioca &lt;br /&gt;Compositor(es) Bonfíglio &lt;br /&gt;Gravadora Phoenix &lt;br /&gt;Número do Álbum 70654 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1913-1918 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1913-1918&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00006586&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Teus olhos castanhos &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Gênero musical Modinha &lt;br /&gt;Intérprete(s) Calheiros, Augusto &lt;br /&gt;Compositor(es) Oliveira, Bonfíglio de&lt;br /&gt;Babo, Lamartine &lt;br /&gt;Gravadora Parlophon &lt;br /&gt;Número do Álbum 13191 &lt;br /&gt;Data de Gravação 00/1930 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 00/1930&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00007122&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Glória &lt;/a&gt;Gênero musical Valsa &lt;br /&gt;Intérprete(s) Formenti, Gastão &lt;br /&gt;Compositor(es) Oliveira, Bonfíglio de&lt;br /&gt;Coelho, Branca M &lt;br /&gt;Gravadora Columbia &lt;br /&gt;Número do Álbum 22025 &lt;br /&gt;Data de Gravação 00/1931 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 00/1931 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00012601&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Flamengo &lt;/a&gt;Gênero musical Choro &lt;br /&gt;Intérprete(s) Oliveira, Bonfíglio de &lt;br /&gt;Compositor(es) Oliveira, Bonfíglio de &lt;br /&gt;Gravadora Victor &lt;br /&gt;Número do Álbum 33494 &lt;br /&gt;Data de Gravação 00/1931 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 00/1931 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00007934&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Mar de espanha &lt;/a&gt;Gênero musical Valsa &lt;br /&gt;Intérprete(s) Oliveira, Bonfíglio de &lt;br /&gt;Compositor(es) Oliveira, Bonfíglio de&lt;br /&gt;Evandro, L. R&lt;br /&gt;Guimarães, Rogério &lt;br /&gt;Gravadora Victor &lt;br /&gt;Número do Álbum 33570 &lt;br /&gt;Data de Gravação 00/1932 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 00/1932 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Patápio Silva&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3" /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00000689&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Primeiro amor &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Gênero musical Valsa &lt;br /&gt;Intérprete(s) Silva, Patápio &lt;br /&gt;Compositor(es) Silva, Patápio &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 40053 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1904-1907 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1904-1907 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00000691&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Variações de flauta &lt;/a&gt;Gênero musical Prelúdio &lt;br /&gt;Intérprete(s) Silva, Patápio &lt;br /&gt;Compositor(es) Silva, Patápio &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 40041 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1904-1907 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1904-1907 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00000754&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Noturno n. 1&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;Gênero musical Prelúdio &lt;br /&gt;Intérprete(s) Silva, Patápio &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 40014 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1904-1907 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1904-1907 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Pixinguinha&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3" /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00026908&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Morro do pinto &lt;/a&gt;Gênero musical Maxixe &lt;br /&gt;Intérprete(s) Grupo do Pixinguinha &lt;br /&gt;Compositor(es) Pixinguinha &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 121325 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1907-1913 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1907-1913 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00000787&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Carne assada &lt;/a&gt;Gênero musical Choro &lt;br /&gt;Intérprete(s) Choro Carioca &lt;br /&gt;Compositor(es) Pixinguinha &lt;br /&gt;Gravadora Phoenix &lt;br /&gt;Número do Álbum 70650 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1915-1918 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1915-1918 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00000836&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Os oitos batutas &lt;/a&gt;Gênero musical Choro &lt;br /&gt;Intérprete(s) Grupo do Pixinguinha &lt;br /&gt;Compositor(es) Pixinguinha &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 121610 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1915-1921 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1915-1921 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;font size="4"&gt;&lt;strong&gt;Eduardo das Neves&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="4" /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00000001&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Cabocla de caxangá &lt;/a&gt;Gênero musical Batuque sertanejo &lt;br /&gt;Intérprete(s) Companheiros&lt;br /&gt;Neves, Eduardo das &lt;br /&gt;Compositor(es) Catulo da Paixão Cearense &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 120521 &lt;br /&gt;Data de Gravação 00/1900 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 00/1900 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00001836&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Santos dummont &lt;/a&gt;Gênero musical Dobrado &lt;br /&gt;Intérprete(s) Banda da Casa Edison &lt;br /&gt;Compositor(es) Neves, Eduardo das &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 40069 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1904-1907 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1904-1907 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Cândido das Neves, o Índio&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3" /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00026778&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Cantando por índio das neves &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Gênero musical Não identificado &lt;br /&gt;Intérprete(s) Neves, Cândido das &lt;br /&gt;Compositor(es) Neves, Cândido das &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 122149 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1921-1926 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1921-1926 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00003315&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Nênias &lt;/a&gt;Gênero musical Toada canção &lt;br /&gt;Intérprete(s) Celestino, Vicente &lt;br /&gt;Compositor(es) Neves, Cândido das &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 10336 &lt;br /&gt;Data de Gravação 00/1929 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 00/1929 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00007173&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Noite cheia de estrelas &lt;/a&gt;Gênero musical Seresta &lt;br /&gt;Intérprete(s) Celestino, Vicente &lt;br /&gt;Compositor(es) Neves, Cândido das &lt;br /&gt;Gravadora Columbia &lt;br /&gt;Número do Álbum 22105 &lt;br /&gt;Data de Gravação 00/1932 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 00/1932 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00012626&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Lágrimas &lt;/a&gt;Gênero musical Seresta &lt;br /&gt;Intérprete(s) Silva, Orlando &lt;br /&gt;Compositor(es) Neves, Cândido das &lt;br /&gt;Gravadora Victor &lt;br /&gt;Número do Álbum 34881 &lt;br /&gt;Data de Gravação 00/1942 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 00/1942 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00010244&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Ultima estrófe &lt;/a&gt;Gênero musical Canção &lt;br /&gt;Intérprete(s) Gonçalves, Nelson &lt;br /&gt;Compositor(es) Neves, Cândido das &lt;br /&gt;Acompanhamento Lacerda, Benedito&lt;br /&gt;Regional &lt;br /&gt;Gravadora Rca victor &lt;br /&gt;Número do Álbum 800413 &lt;br /&gt;Data de Gravação 25/03/1946 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 07/1946 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Sinhô&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3" /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00026271&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;O pé de anjo &lt;/a&gt;Gênero musical Marcha carnavalesca &lt;br /&gt;Intérprete(s) Alves, Francisco&lt;br /&gt;Grupo dos Africanos &lt;br /&gt;Compositor(es) Sinhô &lt;br /&gt;Gravadora Popular &lt;br /&gt;Número do Álbum 1008 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1911-1921 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1911-1921 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Título da música &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00024429&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Viva a penha &lt;/a&gt;Gênero musical Maxixe &lt;br /&gt;Intérprete(s) American Jazz Band de Sílvio de Souza &lt;br /&gt;Compositor(es) Sinhô &lt;br /&gt;Gravadora Odeon &lt;br /&gt;Número do Álbum 123064 &lt;br /&gt;Data de Gravação 1925-1927 &lt;br /&gt;Data de Lançamento 1925-1927 &lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 19 Nov 2007 22:16:00 GMT-03:00</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>O gênio de Escobar</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=4981</link>
      <description>&lt;p&gt;Que meus conterrâneos não me leiam, mas Poços de Caldas tornou-se uma cidade tão ignorante de sua história, que nem sei se mantém inteligência para coisas menores. Se perguntar ao pessoal quem foi Pedro Sanches, vão responder que é um balneário. Assis Figueiredo, é a rua principal. Francisco Escobar, grupo escolar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;No entanto, no começo do século, se existia alguém inteligente no Brasil, era o Escobar. Está certo, havia Ruy Barbosa. Mas esse dizia que &amp;ldquo;Escobar é uma cabeça de Salomão, sabe tudo o que eu sei e ainda o que eu não sei: música&amp;rdquo;. Euclides da Cunha? É claro. Mas chamava a Escobar de &amp;ldquo;meu mestre&amp;rdquo;. Monteiro Lobato? Tratava-o com a mesma deferência.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Escobar nasceu em Jaguari, município de Camanducaia, sul de Minas, em 1865. Não cursou escola. Foi autodidata a vida toda. Na verdade, nunca tolerou escolas. Aprendeu as primeiras letras com a única irmã, Aninha. Desde cedo, no entanto, demonstrou incrível facilidade para as letras e para a música. O pai, Bento Gomes Escobar, era farmacêutico e chefe político em Camanducaia.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ainda jovem, em São Paulo, Fancisco manteve brilhante polêmica com faculdade de Direito 11 de Agosto, que proibia que rábulas (provisionados) exercessem a advocacia. Ele e Eliseu Guilhermino encaminharam manifestação para o Senado estadual que derrubou a proibição. Teve início aí sua reputação.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em 1892, com 27 anos, foi convidado pelo fazendeiro Labiano da Costa Machado para ir a São José do Rio Pardo. Labiano era grande fazendeiro e, em sua fazenda, emitia-se até dinheiro, dentro daquela zorra que caracterizava a economia brasileira da época, e que resultou do Encilhamento. Em pouco tempo Escobar candidatou-se a vereador, tornou-se presidente da Câmara de São José e, logo depois, intendente municipal (prefeito).&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Era intendente em 1897, quando chegou à cidade Euclides da Cunha. Tornaram-se logo grandes amigos. Virou &amp;ldquo;mestre&amp;rdquo; de Euclides porque fornecia-lhe livros. Inclusive traduziu do latim a coleção Martius, sobre a flora, que Dom Pedro II ofereceu para a Escola Normal de Casa Branca &amp;ndash;onde minha mãe estudou nos anos 40. Parte desse material serviu para enriquecer &amp;ldquo;Os Sertões&amp;rdquo;. Autodidata, Escobar falava espanhol, italiano, inglês e francês.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Euclides ficou em São José de 1897 a 1902. &amp;quot;Os Sertões&amp;quot; foi publicado em 1902, escrito de janeiro a dezembro. Nas correspondências posteriores, Euclides o tratava por &amp;quot;querido mestre&amp;quot;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Dona Aninha&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;Anos atrás, Ana de Assis, a esposa de Euclides, virou símbolo da mulher independente, depois de uma biografia romanceada, que mereceu até uma mini-série onde era vivida por Vera Fischer.&lt;br /&gt;Naqueles tempos, dona Aninha já era cravo em sua vida, lembra Rosaura, a caçula dos Escobar. Em São José do Rio Pardo, ficava à janela, com largos decotes, afim de provocar ciúmes no marido. A primeira vez que Escobar foi à casa do amigo, avisou à mulher:&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Por causa de Aninha, lá não é casa para você freqüentar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em São José, dona Aninha teve um caso com o médico Álvaro Ribeiro, tornando insuportável sua vida. O médico precisou vender a casa e mudar-se da cidade.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Na correspondência que manteve com inúmeros amigos, Francisco sempre foi discreto em relação à vida conjugal do amigo. Só quando Euclides morreu, após um tiroteio com um amante de Aninha, permitiu-se um desabafo: &amp;quot;Não fosse a leviandade de dona Aninha...&amp;quot;.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Em Poços&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;Em 1903 Francisco ficou doente do pulmão em São José e retornou para Camanducaia, para se tratar na casa da mãe. Havia conhecido a mulher na Fazenda Santa Clara, município de Casa Branca. Ficou em Camanducaia até 1909, quando Wenceslau Bráz o nomeou prefeito de Poços de Caldas. O presidente era amigo e correligionário do pai de Francisco. Seu nome já havia sido lançado nacionalmente quando Venâncio Filho divulgou sua correspondência com Euclides no livro &amp;quot;Euclides e seus amigos&amp;quot;.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Em 1910 Francisco deu início à grande reforma de Poços de Caldas.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A primeira grande inauguração foi do Polytheama, o teatro da cidade. Para inaugurá-lo Escobar foi buscar no Rio de Janeiro o maestro Guido Rocchi, que servia à Orquestra italiana que desembarcou no Rio na ocasião. Uma divergência com o regente permitiu que ascendesse ao cargo Toscanini, que iniciou no Rio sua grande carreira mundial.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Guido acabou ficando para Poços de Caldas. Era um professor implacável, que batia com o arco nas mãos de quem errava a lição. Vestia gravata de laço, a cabeleira para trás, e odiava a mulher, Teresinha Rocchi, imortalizada por Antônio Cândido de Mello e Souza com um livro biográfico.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com Escobar, Poços foi a primeira cidade do interior a usar cimento armado nas pontes. A população ficava à espreita esperando a ponte cair. Foi também a primeira a usar macadame para piso de rua. A Prefeitura mantinha gabinete dentário para funcionários e crianças pobres. Toda casa tinha que ter jardim com árvore. Havia redução de impostos para casas que mantivessem recuos e caprichassem na aparência.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Os jardins foram planejados por João Dierberger, que tinha chácara na Alamêda Casa Branca, e que até hoje tem firma mantida por herdeiros no Largo São Francisco.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O músico&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Com toda essa bagagem, Escobar era um músico de finíssima técnica. Em julho de 1916, o violinista russo Mischa Violin foi a Belo Horizonte. Francisco Escobar foi acompanhá-lo. O Diário de Minas fez grandes elogios à apresentação de Escobar com Mischa. &amp;quot;Escobar esteve à altura de Mischa&amp;quot;. Interpretaram &amp;quot;Ronde des Luttins: , de Bazzini, e &amp;quot;Chacone&amp;quot; de Bach.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Certa vez, o conhecido maestro Chiafarelli veio a Poços e mostrou partitura que acabara de chegar da Europa. Era peça para 4 mãos. Francisco tocou na primeira leitura. Também acompanhou Giuleto Veronezzi, violinista italiano cujo acompanhante adoeceu.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Francisco Escobar e Francisca tiveram 11 filhos, 2 dos quais morreram na infância. Ele morreu em 1924, aos 54 anos.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 18 Nov 2007 09:37:00 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>Tico-Tico no Fubá</title>
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      <description>&lt;p&gt;De quem é a maior interpretação de &amp;quot;Tico Tico no Fubá&amp;quot;?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Um forte candidato: a gravação de Benedito Lacerda e Pixinguinha. &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00000990&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Clique aqui.&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;E um Sivuca infernal, de 1951. &lt;a href="http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00000939&amp;amp;p=mediaplayer&amp;amp;dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/"&gt;Clique aqui&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 16 Nov 2007 20:25:00 GMT-03:00</pubDate>
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      <title>Mais Anjos do Inferno</title>
      <link>http://www.projetobr.com.br/web/blog?entryId=4948</link>
      <description>&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;strong&gt;Por Neves&lt;/strong&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=9zoYyk2tsho&amp;amp;feature=related"&gt;Carecas&lt;/a&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;Com esse pedaço de mau caminho, Ninon Sevilla, Perez Prado.&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=3fkxR-v_YFk"&gt;Mamãe, não posso com ela!&lt;/a&gt;&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;font size="3"&gt;La Mucura&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;</description>
      <pubDate>Fri, 16 Nov 2007 17:00:00 GMT-03:00</pubDate>
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